Nos capítulos anteriores – Em Abril de 2009, A conselho de Alfredo Nunes, seu cardiologista, companheiro das lutas académicas, António Amaral está de férias no Porto Santo. Numa das primeiras manhãs em que faz jogging no extenso areal, encontra um cadáver – um homem morto tiro. Participa à autoridade marítima. Nos dias seguintes, as ivestigações decorrem e vai conhecendo pessoas na ilha, o pianista do hotel, o tenente que comanda o posto da Polícia marítima… Noutro plano narrativo, volta-se a 1972 onde, em Moçambique, se desenrola uma operação militar contra uma aldeia que, se pensa abrigar um líder da guerrilha. Enquanto, em 2009, António vai com sua mulher, Cecília, vivendo a tranquilidade de Porto Santo, em Xuvalu, a aldeia-alvo da operação das tropas especiais, está em curso, um inferno de fogo e de sangue. Durante o massacre, as tensões entre militares e agentes policiais vão surgindo…
Décimo quarto capítulo
O tenente Guilherme Lopes olhava, desolado, o cenário de pesadelo. Desgostava-o profissionalmente aquela carnificina contra gente desarmada. Aquilo não era uma tarefa para militares. Repugnava-o aquele hábito de os soldados violarem as mulheres antes de as matar. Não por compaixão para com as vítimas, pois a bem dizer nem as considerava como pessoas, mas pela animalidade pura que representava. Nem se questionava se aquela gente abrigava ou não os terroristas. O Estado-Maior decidira que sim e isso bastava-lhe. Em todo o caso, os inimigos deviam ser abatidos sem piedade, mas aquela espectáculo repugnante era indigno. Porém, sabia que proibir aquele prazer que os soldados consideravam um direito, não contribuiria para o tornar popular, podendo mesmo gerar um princípio de revolta ou, no mínimo, de menor empenho na próxima vez em que tivessem de agir. Porque, àquilo não se podia chamar combater. Câncio estava junto do capitão Alves observando tudo com um sorriso. Nachawi também não participava nas violações. Continuava a gritar com a sua voz rouca, quer em português, quer no seu dialecto nyungwe:
– Mata aquele, acerta-lhe! – E muitas vezes era ele que corrigia a falta de pontaria dos soldados, disparando calmamente e acertando quando os fugitivos já iam longe. Mandava sempre dar-lhe mais um tiro na cabeça. «O tiro de segurança», dizia
Lopes não gostava de trabalhar em conjunto com a polícia política. Ver o seu capitão desautorizado, para não falar dele próprio, era-lhe doloroso. Aquele preto Nachawi já uma vez o insultara chamando-lhe «tenente paneleiro» porque ele, numa das primeira acções conjuntas, hesitara em disparar sobre um grupo de rapazes adolescentes, aterrorizados encostados ao muro de uma escola. Lopes ainda voltara a arma para o agente, mas os olhos sorridentes do negro, que já o tinha enquadrado na sua mira e avisando-o de que o mataria antes que ele o pudesse atingir, tinham-no dissuadido. Disparou sobre os jovens, classificados pela polícia como «turras», abafando os seus gritos com os tiros, usando o carregador sobresselente sobre os corpos já imobilizados pelas primeiras rajadas, mas que ressaltaram quando despejou sobre eles mais uma rajada, descarregando assim a raiva que o possuía. Nachawi, apreciara o gesto, levantou o polegar direito em sinal de aprovação: «Boa, meu tenente!», comentara respeitosamente.
No entanto, Lopes evitara-o a partir de então, apesar das tentativas que o outro fizera para se aproximar. Estava, tal como o alferes Sousa, junto do capitão observando o cenário dantesco. Nada do que ali se estava a passar lhes agradava. Sousa comentou:
– Este miseráveis vão ter de pagar por isto. – Lopes, riu-se:
– Não se esqueça que nós também estamos envolvidos. Veja os nossos soldados que lhes obedecem de tão boa vontade. Aqui não há meios termos, Sousa, ou nos impomos e abatemos aqueles sacanas ou somos cúmplices.
Olharam para o capitão. Absorto, Alves parecia não ter ouvido.
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: Novidades na ilha.
