A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 13 – por Sérgio Madeira

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Nos capítulos anteriores – Em Abril de 2009, por conselho do seu cardiologista, um amigo das «guerras» académicas, António Amaral está de férias no Porto Santo. Numa das primeiras manhãs em que faz jogging no extenso areal, encontra um cadáver – um homem morto tiro. Participa à autoridade marítima. Vai conhecendo pessoas na ilha, o pianista do hotel, o tenente que comanda o posto da Polícia marítima… Noutro plano narrativo, volta-se a 1972 onde, em Moçambique, se desenrola uma operação militar contra uma aldeia que, se pensa abrigar um líder da guerrilha. Enquanto, em 2009,  António vai com sua mulher, Cecília, vivendo a tranquilidade de Porto Santo, em Xuvalu, a aldeia-alvo da operação das tropas especiais, está em curso, um inferno de fogo e de sangue.

 

Décimo terceiro capítulo

Porto Santo, noite de quarta-feira, 15 de Abril

Para essa noite tinham marcado na recepção do hotel um jantar no famoso restaurante do Teodorico, na Serra de Fora. Era um estabelecimento familiar e modesto que,  segundo o recepcionista dissera,  talvez com alguma dose de exagero,  fazia as melhores espetadas do arquipélago.

Nos meses de menor movimento nem sempre abria, sendo preciso reservar mesa com alguma antecedência. Um táxi veio buscá-los um pouco antes das oito e,  por uma estrada sinuosa e rodeada de escarpas,  subiram até ao local. Com o motorista, combinaram o regresso para cerca das nove e meia.

António,  apenas para fazer conversa,  comentou para o taxista que no filme de Brun do Canto, do final dos anos 30 do século passado, A Canção da Terra, rodado no Porto Santo, a ilha parecia ser verdejante e viver a sua população sobretudo da agricultura. O homem, que fora emigrante no Canadá,  respondeu – «Sim, quando eu era garoto, esta ilha ainda era considerada o celeiro do arquipélago». Depois, acrescentou que a emigração fora aos poucos despovoando a ilha de homens jovens, as terras aráveis foram sendo abandonadas às ervas daninhas e os baldios de mato selvagem substituíram essas terras cultivadas. As secas prolongadas, motivadas em parte pela progressiva desertificação e erosão,  fizeram o resto.  «Hoje em dia, isto está bom é para os coelhos», disse apontando a vegetação rasteira que circundava a estrada. E concluiu:  «quase tudo o que aqui comemos,  vem de fora.  Nem pescar nas nossas águas, o governo regional nos deixa».

Chegados ao restaurante, onde apenas outro casal, dois jovens continentais, ocupava uma das mesas da sala,  estavam muito silenciosos, falando apenas por monossílabos. «Estão aqui, estão a divorciar-se», sentenciou António a uma Cecília que lhe abriu os olhos, com receio de que o rapaz e a rapariga o tivessem ouvido. António era um pouco surdo e, por isso, falava num registo relativamente elevado. Foram atendidos pelo próprio senhor Teodorico, um velhote franzino,  simpático e afável. As espetadas, confeccionadas em lume de lenha e empaladas em pau de loureiro,  bem temperadas com um molho que era um bem guardado «segredo da casa»,  era, de facto,  muito boas.

O vinho  produzido na ilha, embora muito gabado pelos nativos, não era aconselhável  por ter um teor alcoólico demasiado elevado e ser ácido e agressivo ao palato, pelo que, tendo-o provado,  António optou por um bom tinto alentejano um sedoso néctar da adega cooperativa de Pias. Em suma, um bom jantar – uma entrada de pão de caco,  as tais espetadas feitas em espeto de pau de loureiro (o segredo estava sobretudo no tempero e na excelente qualidade da carne, ao que parece, importada dos Açores), batatas fritas, salada, o Pias do ano, macio… Uma refeição bastante simples, mas muito agradável.          

À hora combinada, o taxista, o senhor Fernando,  foi buscá-los. Tentando desesperadamente fidelizar estes clientes continentais numa época de tão pouco movimento, o homem deu-lhes à despedida um cartão com o número do seu telemóvel. Estava disponível, segundo disse,  para os ir levar ou buscar fosse onde fosse e a que horas fosse. 

Antes de se irem deitar, o som do piano atraiu-os ao aprazível salão do hotel. Havia quem ainda estivesse a jantar. Manolo Ruíz cumprimentou-os muito sorridente e concluindo o bolero,  passou para o As time goes by. Fez um gesto com a mão direita, era-lhes dedicado

Cecília tomou uma infusão de camomila e António bebeu um gin tónico. O Nunes dissera que ele podia beber moderadamente. Naqueles primeiros dias de descanso, seguira à risca as prescrições do amigo – não fumara, caminhara bastante, descansara, fizera uma alimentação saudável. Sobretudo, procurara com algum êxito, não pensar nos problemas da empresa. Por isso, achava ele, merecia um prémio – um nostálgico gin tónico evocador de Mário-Henrique Leiria e do seu velho cão o «Vodka», um inesquecível vizinho de Carcavelos que, mais de trinta anos atrás lhe iluminara a juventude com a narrativa de algumas das suas aventuras e  as suas sabiamente loucas dissertações a uma mesa do café São Jorge, no largo da igreja.

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