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A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 16 – por Sérgio Madeira

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Capítulo dezasseis

Nos capítulos anteriores Em Abril de 2009, António Amaral é conselhado pelo cardiologista, um companheiro das lutas académicas a convalescer de um leve acidente cardiovascular indo taé Porto Santo. Numa  manhã, fazendo jogging pela praia, encontra o corpo de um homem morto tiro. Nos dias seguintes, as investigações decorrem. António e sua mulher, Cecília, vão conhecendo pessoas na ilha. Outro plano narrativo decorre em 1972 onde, em Moçambique, se desenrola uma operação militar contra uma aldeia suspeita de abrigar um líder da guerrilha. Em 2009, António e Cecília vivem a tranquilidade de Porto Santo. Em Xuvalu, consumado o massacre, as tensões entre militares e agentes da polícia política. 

Os homens foram sendo mortos à coronhada e com as baionetas, «para poupar munições». Um soldado, um indígena de Tete, atirava as crianças mais pequenas ao ar e aparava-as com a baioneta, num macabro número de circo.  Outro esventrou uma grávida já morta e exibiu perante os colegas um feto ainda vivo. Um cabo branco juntou à sua frente um grupo de mulheres idosas. Gritou-lhes:

– Vá, velhas, batam palmas, despeçam-se da puta da vida. – Elas, sem compreender muito bem o que eles lhes dizia, aterrorizadas, obedeceram. Abateu-as de imediato com rajadas sucessivas. Os corpos produziam um ruído surdo ao cair.

Um grupo de soldados começou a juntar corpos, alguns ainda com um sopro de vida. Cobriram-nos com mato seco e lançavam-lhes fósforos acesos. Estranhamente os corpos das crianças emitiam línguas de fogo mais vivas do que a as dos adultos.

Câncio não participava na chacina. Friamente circulava entre os diversos grupos de soldados e vítimas, dizendo para os primeiros: «Não deixem ninguém vivo. Tudo o que mexer, abatam». Os soldados estavam bêbedos com o odor que havia no ar… Cheirava a sangue, a mato, a sémen, a carne queimada, a urina e a excrementos… Havia ainda muitos sobreviventes.

Saindo da apatia, o capitão Alves gritou para os soldados pararem. Aos poucos eles foram obedecendo, embora não fosse fácil travar a psicose assassina que se apossara daqueles jovens «normais». O capitão mandou agrupar os aldeãos vivos, ilesos ou com pequenos ferimentos, eram ainda mais de cem, talvez pouco menos de metade dos que já tinham sido exterminados. «Vamos agrupá-los e distribuí-los por outras aldeias», disse para Lopes.

Câncio com Nachawi atrás apareceram:

– O que julga que está a fazer, capitão? – perguntou o Câncio.

– Mandei agrupar esta gente que resta e vou distribuí-la pelas aldeias vizinhas – e acrescentou –  para lição já chega. Agora quero mesmo que seja assim. – acentuou o quero mesmo, tentando evitar a contestação – É assim que vai ser! – concluiu de forma peremptória – Quem se opuser, pagará caro.

Mas não ganhou nada com a ênfase:

– Nem pensar. Não fica nenhum vivo – a voz de Câncio subiu levemente de registo – desculpe, capitão, compreendo a sua posição, mas trata-se de um decisão política – Câncio, por sua vez, enfatizou esta palavra – O Estado-Maior foi claro – o aspecto político da operação é determinado por nós, isto é, por mim. O senhor – esticou o dedo – providencia a acção militar necessária a que os objectivos políticos sejam atingidos. É assim que tem de ser! – e virou as costas ao captião  Alves.

Nachawi nem esperara pela resposta do capitão que tentava uma saída airosa para a situação. Seguido por um grupo de soldados negros, começou a meter os sobreviventes em palhotas, aos dez em cada. Adivinhando o que os esperava, gritavam. Eram maioritariamente mulheres e crianças, um outro homem idoso. Os mais novos já tinham sido mortos. As coronhas das G-3, abatiam-se sobre os que se recusavam a entrar. Quando todos ficaram dentro das palhotas, com as portas fechadas, os soldados correndo, abriam as portas de supetão e iam atirando para dentro de cada, uma ou duas granadas defensivas, algumas vezes as portas abriam-se e alguém tentava fugir, sendo logo abatido a tiro.

Lançadas as granadas, passavam uns segundos em silêncio, ouvindo os choros e os gemidos. Depois as explosões faziam tremer o solo, os tectos cónicos subiam em chamas, as paredes das palhotas ardiam, os gritos iam extinguido-se e só o crepitar do fogo  se escutava. Lopes disse em voz baixa, de forma a só Alves e o alferes Sousa ouvirem:

– Meu capitão, deixe-me tratar destes dois  filhos da puta.

Sousa levou a mão ao sabre e olhou esperançado para Alves.

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