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PRENHE – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

 

             Numa noite chego a casa e oiço gritos. A  minha sogra a puxar Amélia, a minha filha, pelos cabelos; Sofia (a minha mulher) pelo meio, a tentar apartar. A velha berrava:

            – Perdida ! Sua desgraçada ! Vadia ! Puta !

            A bater-lhe na cara e nos dentes. Muitas a acertarem na Sofia. Esta já assopra. A escudar a filha, de unhas em riste, já a mansa pomba-rola é tomada por felino assanhamento. Não tarda que se vire à velha. É quanto basta para também me apetecer molhar a sopa. Não é por mal. Antes pelo contrário. É só por querer evitar à Sofia ofensa sua ao quinto mandamento. De modos que sou quem antecipa uma lambada nas ventas da velha que logo a vira de cangalhas. Com o lenço, limpo o rosto da Amélia.

            – O que foi, filha ?

            Ainda esparramada no chão a velha gritou:

            – Essa cadela está prenhe !

            Levantei o pé, não gosto nada de baratas mas, antes de arrear, a Sofia agarrou-se a mim, a chorar. Desenvencilhei-me. Virei costas. Pus a mão em cima do ombro da Amélia e puxei-a para o outro quarto. Fechei a porta à chave.

            – O Bernardo enganou-te, não é ?

            Ela não respondeu. Apenas chorou.

            Dei-lhe o lenço.

            – Não tenhas medo. Nem vergonha. Tudo se resolve.

            Abalei. De casa e do trabalho. Fiquei três dias por fora. Ao terceiro cacei o Bernardo à saída de um novo emprego. Era fim de tarde, folhas secas pela rua. Com a mão esquerda ferrei-o pelo cangote. Borrou-se todo. Os colegas fizeram cerco. Com a mão direita puxei da naifa de ponta e mola e cantei assim:

            – Os meninos tenham juizinho, porque este desonrou e pejou moça donzela. Depois fugiu. Se o gabiru vier por bem, tudo poderá ainda ficar por bem. Mas se ele resiste ou vocês avançam, varo-lhe as tripas.

            O Bernardo gaguejou:

            – Eh pá ! calma, calma, fiquem quietos que eu vou de livre vontade…

            E fomos. Durante o caminho ainda tentou desfiar desculpas mas eu disse-lhe, e uma vez só:

            – Caluda !

            Ao chegarmos a casa toda a família nos rodeou. Mandei:

            – Fora ! Só fica a Amélia.

            Também a minha mulher ia a sair e eu disse ainda:

            – A Sofia também fica.

            E ficou. Abri a mão esquerda e o Bernardo caiu sentado no chão. Levou as mãos ao pescoço e começou a respirar fundo. Olhei para a Amélia:

            – Filha, o que está feito, está feito ! e muitas voltas dá o mundo. Pensa bem e responde: tens algum interesse em casar com isto ?

            A Amélia ficou-se a olhar para mim. Os olhos fundos. Cismou mais de um minuto.

            – Não, pai, não me interessa casar com isso.

            Voltei a filar o gajo pelo cangote. Abri a porta do alpendre. Pontapé no cu do gebo, ventas no chão. O Pierrot e a Colombina ainda lhe ferraram dente nas canelas.

            Cinco meses depois nasceu o Carlinhos. A cara da mãe. Felizmente.

in MATA-CÃES

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