Numa noite chego a casa e oiço gritos. A minha sogra a puxar Amélia, a minha filha, pelos cabelos; Sofia (a minha mulher) pelo meio, a tentar apartar. A velha berrava:
– Perdida ! Sua desgraçada ! Vadia ! Puta !
A bater-lhe na cara e nos dentes. Muitas a acertarem na Sofia. Esta já assopra. A escudar a filha, de unhas em riste, já a mansa pomba-rola é tomada por felino assanhamento. Não tarda que se vire à velha. É quanto basta para também me apetecer molhar a sopa. Não é por mal. Antes pelo contrário. É só por querer evitar à Sofia ofensa sua ao quinto mandamento. De modos que sou quem antecipa uma lambada nas ventas da velha que logo a vira de cangalhas. Com o lenço, limpo o rosto da Amélia.
– O que foi, filha ?
Ainda esparramada no chão a velha gritou:
– Essa cadela está prenhe !
Levantei o pé, não gosto nada de baratas mas, antes de arrear, a Sofia agarrou-se a mim, a chorar. Desenvencilhei-me. Virei costas. Pus a mão em cima do ombro da Amélia e puxei-a para o outro quarto. Fechei a porta à chave.
– O Bernardo enganou-te, não é ?
Ela não respondeu. Apenas chorou.
Dei-lhe o lenço.
– Não tenhas medo. Nem vergonha. Tudo se resolve.
Abalei. De casa e do trabalho. Fiquei três dias por fora. Ao terceiro cacei o Bernardo à saída de um novo emprego. Era fim de tarde, folhas secas pela rua. Com a mão esquerda ferrei-o pelo cangote. Borrou-se todo. Os colegas fizeram cerco. Com a mão direita puxei da naifa de ponta e mola e cantei assim:
– Os meninos tenham juizinho, porque este desonrou e pejou moça donzela. Depois fugiu. Se o gabiru vier por bem, tudo poderá ainda ficar por bem. Mas se ele resiste ou vocês avançam, varo-lhe as tripas.
O Bernardo gaguejou:
– Eh pá ! calma, calma, fiquem quietos que eu vou de livre vontade…
E fomos. Durante o caminho ainda tentou desfiar desculpas mas eu disse-lhe, e uma vez só:
– Caluda !
Ao chegarmos a casa toda a família nos rodeou. Mandei:
– Fora ! Só fica a Amélia.
Também a minha mulher ia a sair e eu disse ainda:
– A Sofia também fica.
E ficou. Abri a mão esquerda e o Bernardo caiu sentado no chão. Levou as mãos ao pescoço e começou a respirar fundo. Olhei para a Amélia:
– Filha, o que está feito, está feito ! e muitas voltas dá o mundo. Pensa bem e responde: tens algum interesse em casar com isto ?
A Amélia ficou-se a olhar para mim. Os olhos fundos. Cismou mais de um minuto.
– Não, pai, não me interessa casar com isso.
Voltei a filar o gajo pelo cangote. Abri a porta do alpendre. Pontapé no cu do gebo, ventas no chão. O Pierrot e a Colombina ainda lhe ferraram dente nas canelas.
Cinco meses depois nasceu o Carlinhos. A cara da mãe. Felizmente.
in MATA-CÃES

