Site icon A Viagem dos Argonautas

CONTOS & CRÓNICAS – “O Café do Isidoro” – por António Sales

contos2

à memória de Augusto Silva que foi dono do Café Central e aturou com

 inesquecível tolerância as irreverências da nossa juventude

      Naquele ano a cidade foi sacudida pelo triunfo do “Desportivo” que ascendeu à primeira divisão do futebol nacional. Num domingo de Junho, como nunca se vira, o povo e dezenas de automóveis esperaram os jogadores fora de portas, carregando-os em ombros  e vitoriando-os com vozes roucas de tanto gritar. Apitos, rocas, bombos, bandeiras azuis-vermelhas, serviram para emprestar colorido à manifestação. Pelas adegas e tabernas ofereceu-se vinho à descrição, distribuíram-se abraços e beijos, rebentaram-se foguetes e morteiros e nem um só homem se sentiu inimigo de outrem naquela alucinada expressão de contentamento.

Numa ampla janela da avenida, quando a noite avançava pela madrugada, o presidente do clube falou da importância daquela hora para a cidade e para o concelho, do orgulho e do esforço de jogadores e povo, do passado do presente e do futuro, exaltou o bairrismo das massas populares na consagração da glória de um título sonhado desde há anos. Duas bandas de música tocaram marchas e o hino do clube, intervalando com outros emocionados oradores cujas vibrantes palavras traziam à memória dos mais velhos, numa comparação paradoxal, os arrimados dias iniciais da implantação da República.

Durante cerca de uma semana a euforia varreu a cidade qual levante indomável. Havia um brilho diferente nos olhos e nas vozes, a sonância agitada dos grandes acontecimentos. Carros munidos de megafones ou altifalantes rasgavam as tardes com música de feira e persistentes incitamentos, não à revolta mas ao “patriótico” dever de engrossar a nova campanha de sócios. Charangas e máscaras passavam a gritar na rua, distribuindo prospectos e serpentinas, fazendo do quotidiano um inesperado carnaval.

Quando chegou a quarta-feira no campo de jogos houve matança e carne grelhada de borla para quantas bocas a quiseram comer. Litros e litros de vinho limparam cérebros e gargantas das impurezas da vida. No domingo seguinte ao do triunfo a Câmara prestou homenagem ao “Desportivo”. Na praça encontravam-se bandas de música e nos Paços do Concelho todas as agremiações representadas nos seus estandartes. Jogadores e directores foram recebidos com ondas de aplausos. Trocaram-se palavras e votos e o Presidente do município, além de ter atribuído a medalha de mérito desportivo garantiu ir aumentar o subsídio anual para os cinquenta mil escudos.

No peito do povo o entusiasmo manteve-se latente por tempos fora. Um grupo de capitalistas tomou as rédeas do clube. Compraram-se jogadores, iniciaram-se as bancadas no campo, correram montes de notas. A cidade e o concelho acreditaram que o “Desportivo” abria as portas de uma nova era de progresso e de prestígio.

Isidoro, aproveitando o momento, pediu emprestados os contos de réis que lhe faltavam, chamou um arquitecto e levantou tapume na avenida.

 Já a notícia correu a cidade de uma ponta a outra quando chegou ao jornal para sair no sábado. Não foi um choque, mas a muitos meteu espécie como um modesto empregado de cervejaria conseg

uira o dinheiro para montar um café.

-Para cima de quatrocentos contos! – afirmava o Matos balançando-se na cadeira e lançando sobre o mármore da mesa a pedra do dominó.

-Upa! Upa!, ou eu não me chame Pedro e não me tenham nascido os dentes nessa vida – atalhou, jogando o “carrão”, o dono do Bico Verde.

Quinhentos contos constatava-se em princípios de Setembro e seiscentos, à boca cheia, quando se iniciaram os estuques. Uma iniciativa com visão defendiam uns, uma falência em dez meses vaticinavam outros.

Durante cerca de trinta anos a cidade desconhecera o Isidoro. Aos cinco, arrastando a tragédia dos plainos alentejanos, a família trouxe-o para os montes verdes-de-doer-a-vista.  Tornou-se filho da terra, andou na escola e no campo, conheceu fábrica e balcão. Empregado saltimbanco acabou por “assentar praça” na cervejaria do Narciso. Servidor atento e zeloso, pronto a este e àquele favor, discutindo futebol e não tocando na política, aviando imperiais e bifanas, Isidoro conquistou um modesto lugar na hierarquia social do meio obtendo a primazia de escolha para servir nos banquetes da gente grada da terra.

-Bem com Deus e com o Diabo, eis a posição a que se obriga todo aquele que ganha a vida em permanente contacto com o público. Sem ideias, sem opiniões, ou melhor, com as ideias e opiniões dos clientes – justificava assim a ronceirice do seu espírito.

Desta forma conseguiu viver em paz. Com o seu salutar exemplo de economia cativou pessoas e amealhou patacos. Observou as forças e as fraquezas do negócio e quando previu a subida do grupo de futebol à primeira divisão mentalizou-se na ideia de um café-pastelaria. Em silêncio vendeu duas propriedades da mulher; em silêncio esforçou-se por conquistar o epíteto de bom rapaz; em silêncio aguardou a chegada da embriaguez bairrista trazida pelo vendaval da paixão pelas cores do “Desportivo.

          -Ora, ora, de garganta estou eu farto! Quem vai aguentar aquele estadão todo? – arremessou  o Gomes do Central contra a língua soalheira do Borges – Sim, porque isto de negócio de café tem muito que se lhe diga! Ele é novo, não tem calo. Uma coisa daquelas dá muita despesa… pessoal, máquinas, mercadoria, luz… etecetara, etecetara… Não é chegar ali e já está, enche-se a burra.

-Está bem, ó Gomes! Isso diz você porque toca-lhe na pavana. A terra estava precisada de um poiso decente e aquilo é coisa fina.

-Com finuras ou sem elas não faz mossa no negócio.

-Ó Gomes você picou-se, que diabo!… – o dono do Central fingiu-se desentendido e o outro voltou à carga – Caramba, homem! O progresso nunca fez mal a ninguém. Por essas e por outras ficamos na cepa torta. Bairrismo e basófias vomitadas pelas mesas dos cafés estamos fartos de ouvir mas quando alguém mostra espírito de iniciativa salta-lhe a matilha em cima.

-Gaita Borges! Eu não sou desses e desejo que o rapaz tenha sorte. Que tenha sorte e protecção divina pois diz-se por aí que inaugura a casa no dia de Todos os Santos.

A cidade afirmava por aquilo que os olhos viam pelas frestas do tabique. Espiolhava-se o andamento da obra, as formas do interior e o traço rectilíneo da fachada autênticamente citadina. Espalharam-se boatos, difamou-se o proprietário, atacou-se e defendeu-se a iniciativa. Por um curto espaço de tempo Isidoro ganhou a distinção de um certo protagonismo.

 Conforme se esperava o café abriu na manhã do dia de Todos os Santos. Quando a cidade acordou os vidros estavam limpos de papéis desvendando a cor quente das paredes, a linha moderna do mobiliário e a austeridade iluminada dos balcões. Tudo novo, tudo lindo.

 À tarde foi um corropio. Gente a entrar gente a saír, olhava-se, tocava-se, faziam-se perguntas, esbanjavam-se elogios. Narizes e braços no ar ampliando a admiração e felicitações embrulhadas na grandeza gratuita dos gestos. Da copa aos sanitários Isidoro ia mostrando os segredos da casa concedendo aos visitantes o prazer de uma vista de olhos.

Quando a torre deu três horas ouviam-se no café sorrisos finos de andorinhas mundanas. Isidoro oferecia salamaleques de atenção e explicava tudo com envolvente simpatia. Cada pessoa era uma interrogação no seu investimento para o futuro, cada palavra uma incógnita e cada atitude uma esperança de esperada fortuna. Pelas quatro uma torrencial bátega de água deixou a casa prenhe de gente. Recolheram-se no salão de chá onde o serviço de bolos, natas, leite e chocolate estava a saltar pelas costuras. Lábios rubros enfeitavam conversas e pernas bem torneadas escapavam-se, gulosas, por debaixo das mesas.

«Lindo balcão, bela copa! »- atirou o Seixas com a velhice amparada na bengala e os olhos lúbricos a saltarem nas mamas da Milocas adivinhando-lhe os dezoito anos todos nus. As bandejas de alumínio e o vermelho das fardas dos empregados corriam por entre o mercado das mesas. O riso farfalhudo de D. Gertrudes Castro coloria os quarenta anos assépticos das Pulquérias a estiolarem a idade na mesa do fundo. Um mendigo quis estrear a casa mas foi enxotado. A música ambiente amaciava o esganiçamento das vozes femininas.

«Bah! Isto sim, povo, isto é progresso! – exclamava o loiro Bentinho enchendo com a sua voz violeta o mármore da porta. Entre acenos de simpatia da melhor sociedade Isidoro ia agradecendo com a naturalidade de quem esperava conquistar o Cabo da Boa Esperança. O Calor vinha em ondas repassando fatos e colando-se à pele. Os miúdos do “pão por Deus” esborrachavam os narizes nas vitrinas a contemplar a miragem dos doces.

Pelas oito a cidade foi jantar, mas um pouco antes da hora do cinema a casa voltava a esgotar. Isidoro suava de contentamento. Balcões e montras iluminados e cá fora um luminoso que acendia e apagava lambendo a rua de luz. Gente modesta, não se atrevendo a entrar naquela chiqueza, contemplava de longe. Correu um tempo lânguido sobre os que iam ficando à conversa no passar das horas até que duas inesperadas excursões fecharam a noite.

Oito dias após a inauguração do café o campo do “Desportivo” foi fechado por três jogos. No mês seguinte o Brito, o presidente, morreu num trágico desastre de automóvel com consequência nefastas para o clube. Ainda não haviam passado quinze dias sobre o lutuoso acontecimento as sociedades de cultura e recreio anunciavam grandiosos bailes com orquestras espanholas a fim de se festejarem o Ano Novo. Passou o tempo e o Isidoro passou de moda, Implantado no meio da avenida o café ia integrando os hábitos de uma vida burguesa.

Clientes partiram e clientes ficaram. Adquiriram-se hábitos e conquistaram-se recantos que a memória dos empregados ia registando. Um mundanismo domingueiro ganhou raízes na clientela que ali pousava com o tédio da vida da cidade. O destino foi andando e durante praticamente dois anos o progresso confinou-se ao café do Isidoro.

Uma noite, quase no chegar da Primavera, o Gomes do Central, encostado ao velho balcão, atirou num desabafo:

-Sabem, ando cá a deitar contas à vida pelo que talvez me tente a fazer umas obrazitas na enxada

 

Torres Vedras 1953

Dezembro 1963

Exit mobile version