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A Carta do Deus das Finanças – por José Mora Ramos

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Personagens

Maria – Professora de história, desempregada

José – Companheiro de Maria, desempregado

Clara – Carteiro

 

(A campainha toca, José abre a porta)

Clara – É uma carta registada, para o Senhor José Araújo. É o senhor?

José – Sim, sou eu.

Clara – Preciso do seu Cartão de Cidadão, Bilhete de Identidade, ou de outro documento de identificação.

José – Vou buscar o BI. É só um momento.

Maria – Uma carta registada, de onde?

Clara – Deixe ver. Das Finanças.

Maria – Das Finanças? José, volta a fechar a porta. Ninguém tocou. Ouviste alguém tocar? Eu não ouvi ninguém tocar.

Clara – A senhora desculpe, mas eu já falei com o Senhor Araújo, o destinatário da carta registada, tenho de deixar a carta, é a regra. É como se fosse uma notificação.

Maria – Caramba, parece que cometeste um crime. Cometeste algum crime, tens vontade de cometer um crime, de bater em alguém, de matar alguém?

José – Nós não devemos nada às Finanças.

Maria – Inventaram qualquer coisa.

José – Não brinques. Inventaram o quê? Aqui tem o BI.

Maria – Não quer entrar para ouvir a leitura das péssimas notícias?

Clara – Aqui tem a carta. Preciso que assine este recibo.

José Muito bem.

Maria – Entre, entre, é bom termos uma testemunha da leitura das péssimas notícias. Como é que se chama? As testemunhas têm que ter nome. É a regra.

Clara – Clara.

Maria – Eu sou a Maria e esse senhor é o José. Ah! Isso já sabe, claro, é o nome na carta. Gosta dos músculos dele? Eu gosto. Aliás é o que me resta, gostar dos músculos do José. Está desempregado, mas tem músculos. Eu também estou desempregada, mas não tenho músculos. Dava aulas de história. Grécia, Roma… Fui descartada. Eu acreditava que a história era importante. Conhecer o passado para construir o presente e projectar o futuro.

José – Não encontro nenhuma caneta.

Maria – Agora basta um canudo de economia ou de gestão de uma universidade qualquer, meio canudo também serve. Bastam uns bitates sobre macro e microeconomia. Conhecer apenas o jargão.

Clara – Aqui tem uma …

Maria – Não fique aí à porta, aliás pode ser a senhora carteiro a ler a carta das finanças. A carteiro que revela. O Hermes-Mercúrio dos dias de hoje. Mas sem sandálias com asas. Hermes, o mensageiro dos deuses, protector dos negociantes, dos banqueiros e dos ladrões, usava sandálias com asas. Os carteiros de hoje andam de carro a distribuir as cartas registadas dos ladrões. Mas podemos deixar os Deuses Gregos e eu dou-lhe uma aula de história actual … grátis. Os descartáveis, uma aula para carteiros. E depois Clara-Carteiro Hermes-Mercúrio leva a mensagem da Deusa Maria de lar em lar, uma mensagem a explicar que a história é fundamental para o entendimento da vida.

José – Não encontro uma caneta. Tens uma caneta para eu assinar?

Maria – Não, não tenho, fiz uma fogueira, imolei todas as canetas que tinha.

Clara – Aqui tem uma caneta.

José – Obrigado. Entre, entre, não fique aí à porta. Faz de conta que é uma visita. Deixámos há muito de ter visitas. Não temos como receber os amigos. Entre que cheira bem, apesar de ser um T0 com dois ocupantes não cheira mal, cheira a café. Esqueci-me do café ao lume, entornou, e desculpe estar em tronco nu, estava a fazer exercício físico, abdominais, lombares, e a preparar-me para sair. Comprar rins ou fígado para o almoço. Rins com coentros, muitos coentros. É barato e tem um sabor intenso, parece que estamos num restaurante de luxo, com cheiros e sabores especiais. Gosta de rins?

Clara – Na realidade não gosto e muito menos do cheiro.

José – É pena! Li numa receita, “dotados de um sabor forte e inconfundível, prestam-se a inúmeras e requintadas utilizações culinárias, qual delas a mais saborosa.”Aqui tem o recibo e a caneta.

Maria Nos sacrifícios na Grécia antiga o animal era morto no altar, depois aberto para que os sacerdotes lessem nas suas entranhas uma mensagem que mostrasse a disposição dos deuses. Nos rins, mas especialmente no fígado.

Clara – Então obrigada pela lição de história e um bom dia para vós.

Maria – Espere, espere, já que certamente trouxe as péssimas notícias tem de assistir à sua leitura. Serviço completo. Porte e testemunho. As cartas do Deus das Finanças são difíceis de decifrar, são escritas por deuses secundários que escrevem de forma críptica, vamos precisar de ajuda.

Clara – Minha senhora, eu estou a trabalhar, já perdi muito tempo, ainda tenho muitas cartas para entregar.

Maria – Do Deus das Finanças?

Clara – Não sei, talvez. Agora há imensas cartas das Finanças. Muito mais que até há bem pouco tempo.

Maria – É só mais um minuto. Carta do Deus das Finanças não tem muito texto. É só o relato do que se tem que pagar.

José – É uma coima, por não termos pago o Imposto Municipal sobre Imóveis, o IMI. Não reclamam o imposto, mas o não o termos pago atempadamente.

Maria – Mas o banco ficou com a casa. O imposto é com o banco. Porque é que teremos que pagar a coima de um imposto que já não nos é devido?

José – Não sei. Aqui não explica, diz apenas: “Fica notificado, nos termos do nº 1 do artº 22, no processo de contra-ordenação referido acima, do facto apurado, pagamento do IMI fora de prazo, e da punição em que incorreu. Fica também notificado para, no prazo de quinze dias a partir da recepção desta carta, apresentar defesa escrita ou verbal e juntar ao processo os elementos que entender, podendo fazer-se representar por Advogado.” São 125 Euros.

Maria – Vê senhora carteiro, não lhe disse que íamos precisar de ajuda. Uma coima por ter sido pago fora de prazo o IMI da nossa casa com que o banco ficou. Como é que nos pode ajudar?

Clara – Eu?

Maria – E um advogado que nos defenda gratuitamente, conhece algum?

Clara – Não.

Maria – É pena.

José – Diz aqui que nos vão penhorar.

Maria – Penhorar o quê? Os teus pesos de fazer músculos. Ou o projector vídeo. Ou o meu computador. Sabe, já não temos telefone, nem TV cabo, nem internet. O amor num T0, teria sido romanticíssimo noutros tempos. Só a televisão de sinal aberto, quatro canais para o meu zapping, sabe a pouco, e o projector de vídeo das minhas aulas. Devemos ter que vendê-lo para o mês que vem.

José – Aqui diz explicitamente penhorar a casa ou o ordenado. Talvez penhorem o teu subsídio de desemprego.

Maria – Sabe Clara, eu gostava muito da minha casa. Andei muitos anos pelo país a dar aulas, primeiro de vila em vila, depois de cidade em cidade, e quando finalmente consegui assentar comprámos a nossa casa. T3, não era grande, foi a única vez que fiz um empréstimo. Sala, dois quatros e escritório. Um quarto era para o filho que estava para vir. Desisti do filho. Fiz um aborto. Já fez um aborto.

Clara – Não!

Maria – Há-de fazer. É inevitável hoje em dia. E saudável. É uma forma de aprendermos a ser realistas. E filhos, tem filhos?

Clara – Não. Ainda não.

Maria – Ainda não! Era o que eu dizia há alguns anos. Mas o banco ficou com o quarto do filho que íamos ter. Havia uma varanda com plantas, devem estar todas mortas, há meses que ninguém as rega, a não ser que tenha havido um comprador hortelão. Agora estão na moda as hortas urbanas nas varandas dos apartamentos chiques. É chique, dá status! – Iliane querida, queres vir visitar a minha horta urbana? Tem alfaces e rabanetes! Acham que o comprador rega as minhas plantas? Este cubículo é alugado. Com o meu subsídio de desemprego. A seguir à penhora do subsídio só mesmo uma barraca. Ou um tiro! Na cabeça, talvez não na minha! Obrigado pelas notícias que nos trouxe e pelo tempo que nos cedeu. Bom dia.

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