Site icon A Viagem dos Argonautas

POESIA AO AMANHECER – 416 – por Manuel Simões

 

       IRENE LUCÍLIA

                                        ( 1938 )

 

            SOBRE A MEMÓRIA DESTES DIAS

            (fragmento)

 

            Sobre a memória destes dias

            denuncio o curto espaço entre o cérebro

            e os olhos o curto espaço onde arrumo

            os vestígios dissolutos dos passos que

            sobre a vida riscaram os trilhos à toa de viver

            os contornos corruptos que à noite

            os vultos da cidade desenham sobre a água

            ao rés do cais e do desconforto

            falo das notas estridentes do sangue sobre a calçada

            dos respingos de lume que os navios desesperados

            soltam durante os incêndios

            torna-viagem-sem-retorno

            flor de fogo estrela ou dor fautível

            sobre os altos oceanos do mar.

 

            (…)

            desta maneira denuncio

            registo a memória

            arrumo os dias contraditórios

            entre o absurdo e a alegria.

 

            (de “Estrada de um Dia Só”)

Poetisa, pintora e também autora de textos para a infância. Colaborou nos volumes colectivos “Ilha” (1975), “Ilha 2” (1979), “Ilha 3” (1991) e “Ilha 4” (1994). Obra poética: “ Hora Imóvel” (1968), “O Pé dentro d’Água” (1980), “Ilha que é Gente” (1986), “A Mão que Amansa os Frutos” (1991), “Estrada de um Dia Só” (1995), “Protesto e Canto de Atena” (2002), “Água de Mel e Manacá” (2002).

 

Exit mobile version