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IMITAÇÃO DA ÁGUA, de JOÃO CABRAL DE MELO NETO

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João Cabral de Melo Neto
1920 – 1999

 

 

 

 

IMITAÇÃO DA ÁGUA

 de

      João Cabral de Melo Neto

 

 

De flanco sobre o lençol,

paisagem já tão marinha,

a uma onda deitada,

na praia, te parecias.

 

Uma onda que parava,

ou melhor:que se continha;

que contivesse um momento

seu rumor de folhas líquidas.

 

Uma onda que parava

naquela hora precisa

em que a pálpebra da onda

cai sobre a própria pupila.

 

Uma onda que parara

ao dobrar-se, interrompida,

que imóvel se interrompesse

no alto de sua crista

 

e se fizesse montanha

(por horizontal e fixa),

mas que ao se fazer montanha

continuasse água ainda.

 

Uma onda que guardasse

na praia cama, finita,

a natureza sem fim

do mar de que participa,

 

e em sua imobilidade,

que precária se adivinha,

o dom de se derramar

que as águas faz femininas

 

mais o clima de águas fundas,

a intimidade sombria

e certo abraçar completo

que do líquido copias. 

 

 

 

Nota – Obrigado à Rachel Gutiérrez, que me deu a conhecer este maravilhoso poema, e a devida vénia, e pedido de compreensão aos herdeiros de João Cabral de Melo Neto.

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