NESTE DIA… Em 31 de Outubro de 1902, nasceu Carlos Drummond de Andrade
carlosloures
Publicamos de novo o magnífico texto de Manuel Simões sobre Carlos Drummond de Andrade.
O grande poeta brasileiro (1902-1987) é por demais conhecido e a sua obra (lembremos apenas Sentimento do Mundo ou A Rosa do Povo) faz parte do património das literaturas de língua portuguesa. Há uma dimensão, porém, não muito frequentada pela crítica e que se refere a um volume de poesia, O Amor Natural, até pelo modo, quase clandestino, como foi publicado. Em Agosto de 1985, a um jornalista que lhe pedia notícias sobre o livro, Drummond respondeu-lhe que não tinha intenção de publicar os seus versos eróticos, receando que o leitor os considerasse pornográficos.
Na verdade, o volume já tinha sido publicado em 1981 numa edição reservada de apenas dois exemplares, um dos quais entregue ao escritor argentino Manuel Graña Etcheverry, crítico literário e genro do poeta. O outro exemplar foi submetido à apreciação de outros amigos e estudiosos, que o avaliaram com apreço, mas Drummond continuou a mantê-lo em silêncio.
Só em 1992, cinco anos depois da morte do Autor, é que se publicaram os poemas e logo nesse ano saiu uma edição holandesa e outra portuguesa. Estava desfeito o temor do poeta sobre o modo como os brasileiros teriam recebido o livro (Prémio Jabuti para o melhor livro do ano) e, de resto, é surpreendente que o Drummond irreverente e anticonformista tivesse tido receio de transgredir os códigos culturais dos leitores e as convenções sociais pequeno-burguesas de que ele tantas vezes escarneceu na sua obra.
Nos quarenta poemas da colectânea, todos dedicados ao tema de Eros, o leito parece substituir Itabira (onde nasceu o poeta) para se tornar o lugar onde o amor exerce o seu poder para reconstituir a perdida unidade do Homem.
De O Amor Natural transcreve-se aqui o poema de abertura: