Poema de Herberto Helder (in “A Colher na Boca”, Lisboa: Edições Ática, 1961; “Poesia Toda”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1981 – pág. 40) Recitado por Luís Gaspar* (2014) (in “Estúdio Raposa”)
I
Um poema cresce inseguramente na confusão da carne. Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência ou os bagos de uva de onde nascem as raízes minúsculas do sol. Fora, os corpos genuínos e inalteráveis do nosso amor, os rios, a grande paz exterior das coisas, as folhas dormindo o silêncio, as sementes à beira do vento, — a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema. Insustentável, único, invade as órbitas, a face amorfa das paredes, a miséria dos minutos, a força sustida das coisas, a redonda e livre harmonia do mundo. — Em baixo o instrumento perplexo ignora a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
* Produção – Luís Gaspar
O POEMA (VII)
Poema de Herberto Helder (in “A Colher na Boca”, Lisboa: Edições Ática, 1961; “Poesia Toda”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1981 – págs. 39-40) Dito pelo autor* (in EP “Herberto Helder: Poesia Portuguesa”, Philips 431 999 PE, 1970)
A manhã começa a bater no meu poema. As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores líricas. Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema. Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas, o rodopio das rosáceas do meu poema batido pela revelação das coisas. Os finos ramos da cabeça cantam mexidos pelo sangue. Talvez eu enlouqueça à beira desta treva rapidamente transfigurada. Batem nas portas das palavras, sobem as escadas desta intimidade. É como uma casa, é como os pés e as mãos das pessoas invasoras e quentes.
Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só, deitado de costas, com o nariz que aspira, a boca que emudece, o sexo negro no seu quieto pensamento. Batem, sobem, abrem, fecham, gritam à volta da minha carne que é a complicada carne do poema.
Uma inspiração fende lírios na minha testa, fende-os ao meio como os raios fendem as direitas taças de pedra. Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa, uma visita do sangue cheio de luzes interiores. Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem levitante, as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.
É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados do poema. É Deus que rola e a morte e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal à beira do povo que até mim separa os espinhos das formas e traz sua pureza aguda e legítima. — Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais pequenos cravos de ouro ou peixes delicados de música fria.
— Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.
O poema dói-me, faz-me feliz e trágico. O povo traz coisas para a sua casa do meu poema. Eu acordo e grito, bato com os martelos dos dias da minha morte a matéria secreta de que é feito o poema.
— A manhã começa a colocar o poema na parte mais límpida da vida. E o povo canta-o enquanto se desfaz nos campos que se levantam aos cumes das seiva. A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida do mundo.