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A NOSSA RÁDIO – Em memória de Herberto Helder (1930 – 2015) – 3 -por Álvaro José Ferreira

(1930 - 2015)

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Nota prévia:

Para ouvir os poemas de Herberto Helder (os ditos/recitados e os cantados), há que aceder à página http://nossaradio.blogspot.com/2015/04/em-memoria-de-herberto-helder.html e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

 O POEMA (I)

Poema de Herberto Helder (in “A Colher na Boca”, Lisboa: Edições Ática, 1961; “Poesia Toda”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1981 – pág. 40)
Recitado por Luís Gaspar* (2014) (in “Estúdio Raposa”)

I

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
— Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

* Produção – Luís Gaspar

O POEMA (VII)

Poema de Herberto Helder (in “A Colher na Boca”, Lisboa: Edições Ática, 1961; “Poesia Toda”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1981 – págs. 39-40)
Dito pelo autor* (in EP “Herberto Helder: Poesia Portuguesa”, Philips 431 999 PE, 1970)

A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas das palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.

É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
— Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

— Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.

O poema dói-me, faz-me feliz
e trágico. O povo traz coisas para a sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.

— A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto se desfaz nos campos que se levantam
aos cumes das seiva.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.

* Produção – João Martins

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