GREVE DA FOME – Um breve balanço – por Eurico Figueiredo
joaompmachado
É altura de fazer um balanço de uma greve da fome que terminamos na sexta -feira à noite, no seguimento de um encontro com uma delegação do Partido da Terra, presidida por José Inácio Faria.
Vimo-nos confrontado com um conflito de lealdades.
Por um lado tínhamo-nos comprometido, com a comunicação social, a só parar a greve da fome quando a Segurança Social nos pagasse.
Por outro lado tínhamos aceitado o convite do MPT para ser cabeça de lista, para as eleições parlamentares, pelo Distrito do Porto.
Em devido tempo informamos a direcção do MPT das razões, sobretudo simbólicas, da nossa decisão, encarando-a como estritamente pessoal. O MPT, todavia, solidarizou-se com o nosso gesto.
Posto perante um conflito de lealdades, optamos pela lealdade para com o MPT até porque uma greve da fome pode ser reiniciada em qualquer altura.
O que não se passa com a campanha eleitoral, a começar proximamente e para a qual, pelas suas exigências, temos que estar em boas condições físicas.
Iniciamos a greve da fome, referindo um problema pessoal que nos permitiu, generalizando-o consistentemente, caracterizar o estado Português como um ESTADO DELINQUENTE.
A partir deste facto, avançámos com a tese de que um estado delinquente dá um mau exemplo e provoca, reactivamente, uma mentalidade anarquizante, sub-repticiamente complacente com a pequena corrupção e a fuga ao fisco.
Defendemos que moralizar a acção do estado seria a via mais adequada para que este seja vivido pelos cidadãos como uma pessoa de bem. E como tal, a forma mais eficaz para combater “culturalmente” a pequena corrupção, deixando para os aparelhos policiais e Justiça o combate à grande corrupção.
A luta contra o “caldo de cultura” propício a pequena corrupção tem que ver, fundamentalmente, com a confiança no Estado. Que só se ganha se o Estado é encarado como uma pessoa de bem.
Esta abordagem lida melhor com o também “cultural” desejo “fascizante” de um líder que meta a classe política, “uns gangsteres”, na ordem.
O problema substancial é este.
DESQUALIFICÁ-LO, COM UM PSEUDOMORALISMO DE PACOTILHA, É NÃO QUERER PERCEBER QUE HÁ UM PROBLEMA GRAVE NA RELAÇÃO DO ESTADO COM OS CIDADÃOS QUE PENALIZA PROFUNDAMENTE A QUALIDADE DA NOSSA DEMOCRACIA.
A greve da fome é uma poderosa arma política que tem que ser gerida com pudor.
Distingue-se de uma outras greves porque é o pretenso lesado (ou contestatário) que paga um preço.
Nas outras greves são, muitas vezes, directamente os utentes (como na educação, saúde, transportes, por exemplo) que pagam um preço bem pesado. Tornando as greves impopulares.
Distingue-se, também, da radical “ tocha humana”, porque com a morte do suicida não se lhe permite, ao mesmo o prazer de comemorar a sua vitória: está ao serviço de tanatos e não de éros.
Independentemente da sua eficácia sacrificial: foi uma tocha humana na Tunísia que deitou fogo ao mundo árabe!
Na condução da nossa greve cometemos erros, segundo a nossa apreciação.
Não duvidávamos de que íamos ter apoio no mundo médico.
Enganamo-nos completamente.
Tendo apostado na disponibilidade da ordem dos médicos, esta foi adiando uma decisão.
Viramo-nos para clinicas privadas e um hospital privado. Só um nos respondeu. Desfavoravelmente.
É certo que só depois de ter constatado que a Segurança Social tinha faltado aos compromissos para com o nosso advogado, é que nos decidimos a utilizar esta arma de denúncia.
Devia, contudo, ter adiado a decisão de fazer a greve da fome. Até porque se necessitamos, de facto, dos milhares de euros que a Segurança Social nos deve, mais de 10 mil euros (soube recentemente que a SS tinha adiado a decisão de me pagarem o facto de termos, na nossa sociedade vitivinícola, contratado uma estagiária), a impossibilidade de encontrar uma base institucional fiável vulnerabilizava, eticamente, o grevista da fome.
É fácil descredibilizar uma greve da fome se não é feito num meio institucional que garanta a sua verdade.
É necessário encontrar clínicas privadas militantes disponíveis para aceitar grevistas da fome.
Privadas porque não se vê como será possível defender que é um direito em relação ao serviço nacional de saúde. Só o será quando houver, durante a evolução da greve, riscos graves para a saúde.
Para mais torna-se necessário fazer uma selecção cuidadosa das motivações. O que implica um “diagnóstico” prévio.
Militante, porque os custos da clínica, têm que ser compatíveis com desempregados, falidos, penhorados, e tanta outra miséria que poderá encontrar aqui, nesta forma de luta, uma maneira, adequada, de defender direitos.
Outro erro é o grevista da fome comprometer-se com um objectivo que não controla.
Esclarecemo-nos.
Quando se afirma, como afirmamos e escrevi, que o nosso objectivo, mesmo que parcialmente simbólico, era o de que a Segurança Social pagasse o que nos deve, ENTREGUAMOS AO INIMIGO O CONTROLO DA SITUAÇÃO. E ao parar a greve da fome aumenta o risco de nos descredibilizar, porque não cumprimos o objectivo.
Seria diferente se tivéssemos posto apenas como objectivo a denúncia. O que nos permitiria gerir o objectivo como NÓS QUISESSEMOS.
Certamente quem teme a arma da greve da fome procurará desqualificar estes argumentos apostando numa ética maximalista.