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EDITORIAL: A SÍNDROME DE ESTOCOLMO ATACA DE NOVO

logo editorialJá aqui usámos esta metáfora para tentar explicar o inexplicável – lembramos em traços largos no que consiste na disfunção psicológica que leva um sequestrado a identificar-se com o sequestrador. Em Estocolmo no ano de 1973 – durante um assalto a um banco, os reféns, sequestrados durante seis dias, mostraram-se, solidários com os assaltantes mesmo durante o processo judicial. A solidariedade da vítima para com o seu captor nasce com pequenos gestos de urbanidade do sequestrador para com o sequestrado. pequenas atenções dos bandidos transformam-se, na memória da vítima, em rasgos de bondade. Por outro lado, os sequestrados têm tendência em ser dóceis com os captores, procurando uma fuga a represálias. A evolução da síndrome é subconsciente, a vítima não tem consciência da progressão do trauma. Por outro lado, esta não afecta todas as vítimas em cativeiro, alguns defendem-se desenvolvendo um ódio, porventura exagerado (mas saudável), aos captores. A síndrome, de espectro abrangente, tipifica também o afecto que muitas mulheres vítimas de violência nutrem pelos maridos agressores.

Em grupos alargados, lugares e transportes públicos, ouve-se, desde que os governos são eleitos democraticamente em Portugal, protestos contra a forma como somos governados. Ninguém parece apoiar o partido que está no poder – fervem as anedotas, os boatos, as acusações… Foi sempre para mim um mistério como é que situações de descontentamento generalizado dão lugar a vitórias, por vezes rotundas, dos partidos que estão por detrás dos governos tão duramente criticados. Outro aspecto interessante da chamada psicologia de massas é, pessoas que votam em partidos de direita e que às vezes até se mostram saudosas da ditadura, quando os seus interesses pessoais são de alguma maneira afectados, invocarem «as conquistas de Abril».

Mas esta é uma questão anedótica e marginal. O mistério que gostava de ver esclarecido é como é que partidos que já se viu como governam continuarem a ter a maioria dos votos dos eleitores. Então surge uma explicação – a síndrome de Estocolmo – reféns do neo-liberalismo, nós os eleitores, cativos do círculo vicioso, ciclo e circo fantasioso, que faz alternar um dos dois partidos no poder – ganhámos afecto aos captores, somos seduzidos pelos pequenos gestos amáveis que travestem a violência de impostos e de medidas lesivas do nosso bem-estar. As sondagens demonstram que só um povo de patetas voltaria a eleger um executivo de crápulas e de Nmentirosos, uma equipa desastrosa de saltimbancos que protegem ladrões e propõem subscrições para pagar os roubos, uma gente sem honra que falsifica documentos, diplomas, gente que bajula estrangeiros e despreza os portugueses.

Síndrome de Estocolmo sempre soa melhor do que patetice.

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