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A Guerra na Ucrânia – “A declaração incorrecta de Biden sobre a mudança de regime tornará mais difícil o fim da guerra”.  Por Michael A. Cohen

Seleção e tradução de Francisco Tavares 

8 m de leitura

 

A declaração incorrecta de Biden sobre a mudança de regime tornará mais difícil o fim da guerra

 

 Por Michael A. Cohen

Publicado por  em 28 de Março de 2022 (ver original aqui)

 

É bom Joe dizer em voz alta o que se diz em voz baixa? De modo nenhum. O comentário do presidente torna o caminho para a paz mais longo e mais acidentado.

 

Biden no palácio presidencial em Varsóvia, Polónia, em 26 de Março. Omar Marques/Getty Images

No sábado, o Presidente Biden proferiu um discurso em Varsóvia, Polónia, sobre a guerra na Ucrânia, que os seus colaboradores qualificaram como um dos mais importantes da sua presidência. Biden falou sobre a luta na Ucrânia como uma luta mais vasta na “batalha pela democracia” e pela liberdade humana, mas a única coisa de que toda a gente fala é da sua observação improvisada sobre o Presidente russo Vladimir Putin: “Por amor de Deus, este homem não pode permanecer no poder”.

Este foi um claro erro. A mudança de regime em Moscovo não é a posição dos Estados Unidos e não é o objectivo declarado do apoio dos EUA à Ucrânia.

Sabemos que Biden fez asneira, porque a Casa Branca tentou imediatamente voltar atrás com os comentários do presidente. Isso não acontece quando o presidente diz algo correctamente.

Imediatamente, a sabedoria convencional era que Biden tinha cometido uma gafe notável. No entanto, na segunda-feira, a sabedoria convencional tinha mudado para aplaudir a declaração de Biden: Ele disse o que sentia. Qual é o mal de fazer Putin retorcer-se um pouco?

Biden adoptou largamente esta posição. Quando perguntado novamente sobre a controvérsia, disse aos repórteres que estava simplesmente “a expressar a indignação moral que eu sentia” e que não estava a articular uma mudança de política.

Mas isso não funciona, nem os esforços para explicar a declaração incorrecta de Biden. O facto é – e Biden sabe isto – se o presidente diz alguma coisa, isso é política. Há muitos anos atrás, quando servi no Departamento de Estado como redactor de discursos, esta simples máxima foi constantemente inculcada nas nossas cabeças. Se não tivéssemos a certeza de qual era a política actual sobre uma determinada questão de política externa, verificávamos o que o presidente tinha dito recentemente. Assim, tínhamos a nossa resposta.

O presidente dos Estados Unidos não pode dar-se ao luxo de expressar a sua indignação moral e apelar à destituição de um líder estrangeiro e depois separar isso da política dos EUA.

Independentemente de como Biden tente dar a volta ao assunto, podemos estar seguros de que Putin não verá os seus comentários com a nuance que o presidente preferiria. Pelo contrário, as palavras de Biden apenas alimentarão a convicção do líder russo de que a expansão da NATO para a proximidade exterior do seu país (e o apoio militar à Ucrânia) é simplesmente uma mudança de regime com outro nome.

Como me disse Chris Fettweis, um professor de relações internacionais da Universidade de Tulane: “Não penso que queiras tornar um rato preso mais desesperado ou paranóico”. E foi isso que Biden fez inadvertidamente.

Já nas últimas semanas, Biden chamou a Putin um “bandido puro”, um “ditador assassino”, um “criminoso de guerra”, e um “carniceiro”. O Departamento de Estado também adoptou oficialmente a posição de que a Rússia está a cometer crimes de guerra na Ucrânia. Estas declarações subvertem a eficácia da América como mediador honesto nas negociações diplomáticas destinadas a pôr termo à guerra.

Mas também, e aqui está algo que quase ninguém mencionou: Elas tornam mais difícil para os EUA acabar por levantar as sanções contra a Rússia, o que será quase certamente um requisito de qualquer cessar-fogo actualmente em negociação entre as duas partes. Como explica Biden levantar as sanções a um país cujo líder acredita ser um criminoso de guerra e que não deveria permanecer no poder?

Mais provavelmente, quando os combates tiverem terminado na Ucrânia, Putin permanecerá no poder. E os EUA, quer queiram quer não, não podem simplesmente ignorar o presidente de um país que tem a décima primeira maior economia do mundo (por enquanto) e milhares de armas nucleares.

As palavras de Biden também tornam a vida mais difícil para os aliados da América. Considere, por exemplo, a resposta do Presidente francês Emmanuel Macron às palavras de Biden. “Eu não usaria termos como esses porque ainda estou em conversações com o Presidente Putin”, disse Macron. “O nosso objectivo é parar a guerra que a Rússia lançou na Ucrânia, evitando ao mesmo tempo uma guerra e uma escalada”.

Macron está a fazer esta declaração porque teme que, uma vez que a França e os EUA são aliados contra a guerra da Rússia, ele seja conotado com os comentários de Biden. Por outras palavras, como líder da NATO, Biden defender a mudança de regime em Moscovo poderia ser interpretado por Putin como uma declaração de política não só dos EUA, mas também da NATO.

Biden também fez directamente o jogo da coorte de falcões de política externa que querem que os EUA adoptem uma política de mudança de regime em relação a Putin. O objectivo a curto prazo para os EUA e seus aliados ocidentais é acabar com a sangria na Ucrânia. As palavras de Biden tornarão esse objectivo mais difícil de alcançar e irão incentivar os partidários da mudança de regime.

Se há uma lição que Biden e a sua equipa têm seguido consistentemente ao longo da crise na Ucrânia, é a de manter o foco longe dos EUA – e na Rússia e nas suas acções deploráveis na Ucrânia. A declaração de Biden está a ter o efeito oposto. Não é o fim do mundo, mas ninguém deve enganar-se a si próprio e acreditar que Biden não cometeu um erro. Sem dúvida que cometeu.

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O autor: Michael A. Cohen escreve regularmente no The New Republic, é colunista da MSNBC e um membro da Fundação Eurasia Group, escreve o boletim informativo político Truth and Consequences. Foi colunista no The Boston Globe, The Guardian and Foreign Policy, e é autor de três livros, sendo o mais recente o “Clear and Present Safety: The World Has Never Been Better and Why That Matters to Americans”.

 

 

 

 

 

 

 

 

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