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PALCO 232 – A VOZ HUMANA – por Roberto Merino

 

A Voz é um mecanismo físico humano que nos permite exteriorizar, além da fala, os nossos sentimentos, as nossas ideias. É um mecanismo interior e exterior e que no exterior expressa, revela, o interior do ser humano.

A Voz Humana é o título de um  monólogo teatral escrito em 1930, ano em que foi estreado na Comédie Française, por Berthe Bovy. Nele uma mulher tem uma última conversa por telefone com o seu amante, que acaba de deixá-la. A peça de Cocteau foi transformada em filme por Roberto Rossellini como um dos episódios do filme L’amore (1948), interpretado por Anna Magnani. Dezoito anos depois, Rossellini voltou a realizá-lo, desta vez para a televisão, com Ingrid Bergman como protagonista.

Pedro Almodóvar incluiu uma passagem da obra nos seus filmes A Lei do Desejo (1986), e Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), e mais tarde volta a abordar o tema numa curta-metragem no ano de 2020, considerado pela crítica como um filme ensaio.

Além das versões já citadas ainda temos The Human Voice (1966), de Ted Kotcheff, telefilme protagonizado por Ingrid Bergman, não  disponível para visionamento em nenhuma plataforma portuguesa ou sequer em DVD. Trata-se apenas de um extenso áudio de 42 minutos com a voz da célebre actriz  Ingrid Bergman e que dialoga conosco numa apaixonante intimidade.

Voce umana (2014), de Edoardo Ponti,  protagonizada por Sophia Loren. Na altura do lançamento desta curta-metragem, Sophia Loren tinha 80 anos, portanto é a ela que cabe o título de atriz mais velha a protagonizar uma adaptação da obra de Jean Cocteau, realizada pelo filho mais novo da actriz italiana,  Edoardo Ponti. E finalmente nesta lista a versão de 2018,  de Patrick Kennedy, com interpretação de Rosamund Pike.

Em 2011 no Teatro Nacional São João/TNSJ do Porto, a voz foi a voz da actriz Emília Silvestre com encenação de Carlos Pimenta.

Também temos a versão em ópera deste texto pelo músico francês Francis Poulenc de 1958.

Em A Voz Humana a protagonista é  uma jovem, à espera de um telefonema do seu ex-amante, sem ter o menor sinal dele.

“A ideia de Cocteau partiu de uma experiência pessoal, uma conversa telefónica que ouviu num café, na qual a voz e o silêncio alternavam de forma significativa. Repara na «singularidade grave dos timbres», e na «eternidade dos silêncios65» (Cocteau, 2015, p.7), e cria um texto minimalista com apenas um acto, um lugar, uma personagem e um telefone. Neste drama a uma só voz, as falas da actriz respondem, numa aparente espontaneidade, ao interlocutor que ninguém ouve nem vê. A narrativa é sistematicamente interrompida pelas falhas da tecnologia ou por intervenções de outras personagens em linha, cujas vozes também nunca têm presença. Quase poderia chamar-lhe um diálogo a uma só voz, ou mesmo um monólogo a duas vozes: a da personagem e a do silêncio, ou voz ausente”.

LA VOZ HUMANA, de Jean Cocteau (mexicolegendario.org)

 

Lembrei-me deste belíssimo texto ao ler as notícias que destacam que as mulheres:

Não podem cantar, recitar ou falar. Afeganistão proíbe voz das mulheres em público

Novo conjunto de leis de moralidade rigorosas inclui obrigação de cobertura total do corpo da mulher e a proibição do uso de cosméticos e perfume

O som da voz das mulheres em público tornou-se objeto de repressão pelos dirigentes talibãs do Afeganistão ao abrigo de um novo conjunto de leis de moralidade rigorosas sobre vícios e virtudes do regime islâmico.

Um conjunto legislativo, com várias leis dirigidas às mulheres, que foram promulgadas na quarta-feira, depois de terem sido aprovadas pelo líder supremo, Hibatullah Akhundzada, informou um porta-voz do governo afegão, citado pela CNN Internacional. Entre as novas regras, o artigo 13.º diz respeito às mulheres e aponta-lhes a necessidade de cobrir o corpo com um véu sempre que estiverem em público e cobrir o rosto para “evitar a tentação e a tentação dos outros”.- Mariana Ferreira –Observador- 23-08-24.

Tudo isto prefigura um apartheid de género, impossível de tolerar e que devemos denunciar. Proibidas de usar vestimentas que não cubram na totalidade o corpo e identidade, surge agora esta nova restrição totalitária.

Imaginei que a estas mulheres no futuro se lhes vai proibir andar na rua, pois se a voz é expressão do interior, também não poderão caminhar nas ruas nas quais deixam rastos de sombras: poderão sair à noite? e quando há luar! (?). Enclausuradas para sempre estas mulheres estão destinadas a uma morte lenta e silenciosa.

E que será das palavras, das canções de embalar que estas mulheres guardam desde meninas-mães para entregar e acarinhar os seus filhos. Com quem aprenderão estes meninos a língua materna ?…pois sim, é de língua materna de que se trata!

A voz humana é um mistério, no melhor sentido da palavra, segredo, religiosidade, no teatro medieval chamavam mistérios às representações teatrais.

Voltando à peça de Cocteau, a protagonista comenta ao amante distante:

…”. Você se lembra da Ivone, que não entendia como a voz podia passar através de um fio? Eu estou com o fio em volta do meu pescoço. Estou com sua voz em volta do meu pescoço”.

 

Roberto Merino

10-09-24

 

Nota final; ontem 9 de setembro de 24, morreu Graça Lobo, actriz de uma carreira singular como actriz e encenadora. Tive a oportunidade de a conhecer e privar com ela e o seu companheiro, Carlos Quevedo, na década dos 80 quando visitou a Madeira com o seu espectáculo Há tanto tempo (Old Times), de Harold Pinter, tradução de Ricardo Alberty, encenação de Carlos Quevedo, com Catarina Avelar, Fernando Curado Ribeiro e Graça Lobo. Produção Companhia de Teatro de Lisboa. Estreou a 12/10/1978 no TNDM II (Sala Estúdio) – informação fornecida pela Dra. Paula Braga do Centro de Documentação Teatral do TNSJ, a quem agradeço pela colaboração.

A voz de Graça Lobo foi a voz de muitos autores, entre eles, a “Molly Bloom”, a partir de “Ulisses”, a voz de Mariana Alcoforado das “Cartas Portuguesas”, de Luigi Pirandello, Samuel Beckett, Jean Genet, o seu desempenho de “Hedda Gabler”, de Henrik Ibsen, foi um dos seus maiores sucessos. e em 2003, a voz de Anton Tchékhov numa visitação de “As Três (Velhas) Irmãs”- espectáculo ao qual assisti no Teatro Carlos Alberto/TNSJ-, e é imprescindível recordar-la na sua intervenção em Beckett, na qual a sua voz e boca eram o perfeito elemento para o discurso do autor irlandês.

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