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TRÊS HOMENS E TRÊS MULHERES NUMA CARRINHA – por Eva Cruz

TRÊS HOMENS E TRÊS MULHERES NUMA CARRINHA

por Eva Cruz

Three Men and Three Women in a Van, assim dito à inglesa,  lembrou-me o cómico  romance de aventuras “Three men in a boat”, do escritor inglês Jerome K. Jerome, que muita gente leu na sua juventude. Ontem, onze de Julho, a convite de um antigo aluno meu cuja amizade vem de há longas décadas e da qual muito me orgulho, um notável advogado desta terra, parti numa carrinha branca de nove lugares, pelos vistos também com décadas, mas parecendo nova, a caminho de uma almoço prometido há anos. Promessa até hoje não realizada, por minha culpa e não por falta de insistência dele. Pensando que se trataria de um almoço que noutros tempos fazíamos frequentemente com um grupo de alunos, dei conta de que a companhia era outra. Em Santa Maria da Feira a carrinha recebeu mais dois passageiros, um prestigiado Dr. Juiz, também conhecido, bem como a sua esposa, professora aposentada, por sinal pais de uma ex-aluna muito especial, hoje advogada. Passámos em seguida pelo centro do Porto, no meio de um trânsito infernal, para recolher o quinto passageiro, o meu irmão, médico cardiologista. Fazendo segredo, o meu inesquecível aluno disse-nos que tinha de passar por Vila do Conde. Aí, tive a agradável surpresa de ver entrar para a carrinha mais uma antiga aluna, uma querida aluna pertencente ao tal grupo dos almoços de outros tempos, também professora. Foi então que ele nos disse ter faltado o sétimo passageiro, infelizmente por doença, um Dr. juiz do Supremo Tribunal. Todos lamentámos, porque, segundo o nosso timoneiro, iríamos conhecer uma pessoa de raras qualidades, escritor, poeta e pintor.

Tudo acomodado dentro da carrinha, sem mais mistérios, veio-me então à cabeça a aventura dos “Três homens num barco”, a que juntei três mulheres. A viagem criava um certo gosto de aventura, não só porque o atraso já era grande e o local ainda longe, mas também pelo meandro das inúmeras curvas e contracurvas da bela paisagem minhota. Chegados ao restaurante, no meio da serra e dos campos, onde o meu aluno e nosso amigo foi recebido de braços abertos, esperava-nos uma mesa requintada e o tal bacalhau de que ele nunca se cansava de falar. Eu já o tinha saboreado há muitos anos, com o grupo de alunos que habitualmente se reunia, mas com o tempo a memória foi-se dissolvendo, quase se apagando. Mas reavivou-se de imediato, ao comê-lo com os olhos antes de o saborear com a boca. No fim, todos se confessaram deliciados e nenhum de nós teve dúvidas em concordar que foi o melhor bacalhau de sempre.

No regresso, a descontração era outra e a conversa fluindo sobre vários temas terminou com anedotas e gargalhadas que abanavam a carrinha e mais uma vez me faziam pensar num barco à deriva que desejávamos se mantivesse perdido à tona de água por mais tempo. Porém, o nosso ilustre advogado tinha uma escritura ao fim da tarde em Oliveira de Azeméis, razão pela qual estava obrigado a repor cada navegante no seu lugar de origem, uma professora em Vila do Conde, um médico no Porto, um Juiz e esposa em Santa Maria da Feira e a sua velha professora em S. João da Madeira. Um abraço de agradecimento, de ternura e amizade entre todos foi a sobremesa que conseguiu vencer a excelência do bacalhau.

Obrigada, meu querido Miguel.

 

 

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