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Espuma dos dias — Conjuntura americana à medida que começa a oitava frente de guerra de Israel . Por Alastair Crooke

 

Seleção e tradução de Francisco Tavares

7 min de leitura

Conjuntura americana à medida que começa a oitava frente de guerra de Israel

 Por Alastair Crooke

Publicado por  em 2 de Outubro de 2025 (original aqui)

 

 

Putin pode conviver com a ‘esquizofrenia Jano’[1] de Trump – à medida que as forças russas avançam em todas as principais frentes de batalha.

 

A segunda etapa da passagem feita por Trump da guerra da Ucrânia para os europeus foi claramente definida na sua publicação no Truth Social de 23 de setembro. Na primeira fase desta transferência, Trump deixou de ser o principal fornecedor de armamentos a Kiev e indicou que, a partir de agora, a Europa teria de pagar praticamente tudo – com armas compradas de fabricantes norte-americanos.

Claro, Trump sabe que a Europa está orçamentalmente ‘falida’. Não tem dinheiro para se financiar, muito menos uma grande guerra. Ele então ‘esfregou sal’ nessa ferida de crise orçamental ao desafiar os estados da NATO a serem os primeiros na fila para sancionarem todos os combustíveis russos. Isso também não vai acontecer. Seria uma loucura.

Nesta última publicação no Truth Social, Trump leva a linha de Keith Kellogg [n.t. enviado especial de Trump para a Ucrânia} por redução ao absurdo. “A Ucrânia, com o apoio da UE, pode retomar o país [Ucrânia] à sua forma original – fazendo com que a Rússia pareça um ‘tigre de papel’… e quem sabe, talvez vá ainda mais longe!

Claro – Kiev avançando até às portas de Moscovo? Ponha a outra perna, Sr. Trump. É claro que ele está a provocar Kellogg e os europeus.

Em seguida, após a reunião de Trump com Zelensky, França, Alemanha e Reino Unido na ONU, foi proposto um projecto de resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que repetia a pura exigência europeia e da coligação dos voluntários de capitulação russa. Trump permitiu que altos responsáveis dos EUA participassem ativamente da discussão da resolução – mas então, no último momento, os EUA vetaram a resolução.

Desta forma contorcida, Trump consegue – como [o deus] Jano – fazer face a duas direções ao mesmo tempo: de frente para um lado, ele está 100% atrás da Ucrânia, exaltando o ‘Grande Espírito’ da Ucrânia e adotando a linha Kellogg de que Putin está em grandes apuros. Mas “de frente para o outro lado”, Trump compromete-se contrariamente a “não restringir a possibilidade de conversações de paz, nem a aumentar ainda mais as tensões”.

Putin pode conviver com a ‘esquizofrenia Jano’ de Trump – à medida que as forças russas avançam em todas as principais frentes de batalha. A conclusão é que a Casa Branca sinalizou que não está interessada na guerra com a Rússia. Isso é óbvio. De qualquer forma, há uma guerra mais preocupante que se está a formar dentro dos EUA.

Esta guerra é a oitava frente de Israel – recentemente Netanyahu decidiu proclamá-la assim. A Oitava frente está na América. E está lá precisamente porque a América domina os meios de comunicação mundiais.

O chamado modelo da ‘ordem baseada em regras’ (se alguma vez existiu verdadeiramente para além da narrativa) foi rasgado por Israel – de forma muito deliberada e a sangue frio.

Tom Barrack, amigo de longa data de Trump e enviado ao Médio Oriente – quando questionado sobre qual era o fim do jogo dos EUA para a região – rejeitou completamente a conversa de “paz”: “quando dizemos paz, é uma ilusão”, disse Barrack. “Nunca houve paz. [Algumas] pessoas podem dizer, bem, eles estão a lutar por fronteiras e limites. [Mas] não é por isso que eles estão a lutar. Uma fronteira ou um limite é [meramente] a moeda de uma negociação“. E ele continuou: “o resultado final é que alguém quer domínio, o que significa que alguém tem que se submeter. Nessa parte do mundo … não existe palavra árabe para “submeter”. Eles não podem envolver a sua cabeça em torno de submeter…“.

A guerra sem limites; sem regras; sem lei – e sem limites éticos mais particularmente – torna-se o pré-requisito para alcançar a subjugação total de toda a oposição.

O ex-conselheiro de segurança nacional de Netanyahu, Meir Ben-Shabat, escrevendo (com Asher Fredman) em Foreign Affairs em setembro, afirmou que: “Israel deixou de aderir às linhas vermelhas que os seus vizinhos acreditavam que nunca cruzaria. Israel não concederá imunidade a quaisquer líderes de grupos hostis, independentemente do seu título político ou localização“. Quando Ben Shabat escreve ‘hostil’, é uma piada para dizer ‘não obediente’.

Esta nova doutrina é sobre o ‘domínio’ israelita – e para isso, outros logicamente devem ‘submeter-se’, insiste Barrack. O Ministro dos Assuntos Estratégicos de Israel, Ron Dermer, sugeriu que uma ‘submissão’ suficiente para fazer Israel ‘sentir-se totalmente seguro’ só emergiria através da consciência árabe-muçulmana que está a ser cauterizada por uma derrota total ‘desradicalizante’.

A noção de ‘oitava frente’ de Netanyahu deriva, portanto, da proposição de que o domínio judaico completo (como descreve o enviado dos EUA Barrack) requer um certo domínio na América também. Israel não pode realizar esse domínio sozinho – precisa do apoio inquestionável da América que mantém o fluxo de dinheiro, armamentos e apoio operacional fluindo.

Até recentemente, esse apoio sem reservas era obtido por meio de bilionários judeus ultra-ricos ‘comprando’ políticos e influenciadores americanos – e comprando diretamente os principais meios de comunicação. No entanto, a ascensão de meios de comunicação alternativos como a principal fonte de notícias para os americanos mudou o cálculo e enviou ondas de medo através da comunidade bilionária judaica.

O assassinato de Charlie Kirk veio na esteira de múltiplas pressões sobre Kirk decorrentes de bilionários judeus preocupados com o facto de que o principal eleitorado juvenil americano estava a voltar-se contra Israel, como Max Blumenthal descreveu. O conflito com os grandes doadores judeus de Kirk expôs a questão mais ampla do seu domínio na política de influenciadores dos EUA. A controvérsia que se seguiu levou a um esforço total de bilionários pró-Israel para assumir o controle dos meios de comunicação alternativos dos EUA, particularmente do Tik Tok. (Todas as plataformas sociais dos EUA têm uma tendência algorítmica para Israel, enquanto o Tik Tok não tem. Os bilionários pró-Israel que estão prestes a comprar o Tik Tok insistem que o seu algoritmo deve ser ‘reciclado’).

“[O que os sionistas] enfrentam“, afirma Blumenthal, “é um tsunami político [de realinhamento político] nos Estados Unidos, e eles não têm como detê-lo. E é por isso que, na sequência da morte de Kirk, e nos dias que antecederam a sua morte, alguns destes homens do dinheiro sionista iniciaram uma campanha de tomada de controlo total dos meios de comunicação dos EUA. É como uma campanha agressiva total nos Estados Unidos. Netanyahu estava a travar uma guerra em sete frentes na região, e agora os Estados Unidos tornaram-se a oitva frente. E eles querem impedir que alguém possa expressar-se em qualquer lugar do ecossistema digital on-line apenas comprando tudo“.

Poucos entre os doadores bilionários que apoiaram a organização de Kirk, a TP USA, fizeram mais do que Robert Shillman para deixar clara a natureza subjacente à guerra da Oitava Frente: “com esta caneta e o meu talão de cheques, forneço a munição!“, proclamou o bilionário sob aplausos, durante uma gala da Organização Sionista de direita da América (ZoA) em 2021.

Empunho a caneta para fornecer ‘munições’ [doações] a organizações como a ZoA na linha de frente desta batalha que confronta os inimigos de Israel e do povo judeu – defendendo-se contra os islamitas que desejam destruir Israel e os radicais de esquerda inimigos dos judeus que desejam destruir o povo judeu“.

Como é que este caso se traduz em pressão sobre Trump para que persista na prossecução do esforço de guerra da Ucrânia contra a Rússia? O que é que une doadores judeus extremamente ricos, russófobos clássicos dos EUA e o establishment europeu na causa comum de pressionar Trump para que seja duro com a Rússia? A resposta é que os doadores e os cidadãos pró-israelitas dos EUA e da Europa têm um interesse comum em que a Rússia esteja preocupada (e, na sua opinião, enfraquecida) com o conflito na Ucrânia. A sua preocupação particular é a perspectiva de uma guerra no Médio Oriente. Eles não querem ver a Rússia ou a China empenharem-se directamente no apoio ao Irão, se este fosse atacado militarmente. Estas elites temem pelo futuro de Israel, especialmente se o Irão for fortalecido pelos aliados do BRICS. Eles preferem uma Rússia atolada e não voltar como um interveniente no Médio Oriente novamente – algo que poderia acabar com a ambição de supremacia judaico/israelita em toda a região.

Recorde-se que, em 1992, o então Subsecretário de Defesa Paul Wolfowitz, autor da chamada doutrina Wolfowitz, declarou que, com os soviéticos expulsos do Médio Oriente, os EUA tinham-se tornado a única superpotência incontestável na região e podiam prosseguir a sua agenda global. Wolfowitz destacou a saída da Rússia como o fator crucial para alcançar a hegemonia dos EUA sobre o Médio Oriente.

Recorde-se também de que, na sequência da invocação em 28 de Agosto pela coligação E3 [Reino, Unido, Alemanha e França] do ‘restabelecimento’ das sanções ao Irão, a Rússia e a China assinaram conjuntamente declarações denunciando o voto processual da E3 como “ilegal e processualmente viciada”. Em certo sentido, fornece as bases para a China e a Rússia ignorarem quaisquer sanções subsequentes impostas ao Irão ao abrigo da disposição de restabelecimento. É a primeira vez que a Rússia e a China contestam diretamente o Conselho de Segurança da ONU e implicitamente indicam que ignorarão qualquer restabelecimento de sanções.

No entanto, visto de uma perspectiva diferente, a denúncia conjunta de restabelecimento de sanções poderia abrir a porta para ‘um retorno à região’ da Rússia (e China) através do fornecimento de apoio militar ao Irão – se fosse atacado por Israel, os EUA, ou ambos.

Com a Rússia actualmente totalmente envolvida na Ucrânia, é menos provável que queira iniciar um apoio directo ao Irão em caso de ataque (a Rússia está agudamente alerta para os perigos de uma extensão excessiva do seu envolvimento).

Se a guerra da Ucrânia acabasse, então a Rússia pode ter menos escrúpulos em intervir diretamente em apoio ao Irão. O mesmo se aplicaria à China no caso de o conflito na Ucrânia ter alcançado algum resultado.

A última coisa que o triunvirato dos influenciadores judeus sionistas, os falcões da Rússia dos EUA e os cidadãos europeus pró-Israel querem é a Rússia ‘de volta ao Médio Oriente’. Isso constituiria um pesadelo para eles.

Quando o enviado dos EUA, Tom Barrack, foi perguntado se Israel sentiu a necessidade de outro ‘ataque definitivo’ ao Irão, ele respondeu:

“Parece que eles estão a marchar em direção a uma resolução de todo o problema – que é o que Gaza é – certo? Imagino que apenas colocar Gaza sob controlo, e o Hezbollah sob controlo e os Houthis sob controlo não seja proveitoso – se não controlarmos o regime iraniano. Não tenho informações sobre o que vão fazer, mas não descarto que isso aconteça … temos de cortar as cabeças dessas cobras e cortar o fluxo de fundos. Essa é a única maneira de deter o Hezbollah”.

Assim, o assassinato sem mais nem menos de Charlie Kirk ocorreu ‘inesperadamente’ num momento chave na oferta de domínio regional de Netanyahu – destacando o apoio já em declínio a Israel entre o grupo dos americanos jovens.

O assassinato de Kirk inadvertidamente também desbloqueou a fase seguinte da longa guerra cultural fervilhante nos EUA. O assassinato de Kirk já se tornou tão significativo quanto qualquer outro na história americana recente.

Se as palavras de Rober Shillman ao seu público judeu defendendo “confrontar os inimigos de Israel e do povo judeu – defender-se contra os islamitas que desejam destruir Israel e os radicais esquerdistas inimigos dos judeus que desejam destruir o povo judeu” não foram uma declaração de guerra clara e ampla o suficiente, então ouça Stephen Miller, vice-chefe de Gabinete da Casa Branca, dirigindo-se à multidão no serviço memorial Charlie Kirk:

A Luz derrotará a Escuridão. Prevaleceremos sobre as forças da maldade e do mal. Não podem imaginar aquilo que despertaram. Não podem conceber o exército que surgiu em todos nós. Porque defendemos o que é bom, o que é virtuoso, o que é nobre. E para aqueles que tentam incitar a violência contra nós, aqueles que tentam fomentar o ódio contra nós: o que é que vocês têm? Não têm nada. Vocês são maldade, inveja, ódio. Vocês não são nada. Vocês não podem produzir nada. Somos nós que construímos, que criamos, que elevamos a humanidade”.

 

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[1] N.T. Jano é o deus romano das mudanças e transições. A sua face dupla também simboliza o passado e o futuro.

 


O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).

 

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