As sílabas marginais/Bendigo a árvore sentada para sempre/Nelson Ferraz



bendigo a árvore sentada para sempre
na paisagem instável que tem o meu rosto
como se fosse uma foto de um tronco antigo.
bendigo o rio que sorri no peito da montanha
que desmorona pelos meus ombros
como se fosse uma avalanche de saudades a doer.
bendigo a ave que esvoaça nos olhos azuis
do céu cinzento que me atravessa
como se fosse uma espada com palavras sobre o gume.
ninguém parte de vez e basta que eu queira que assim seja.
nem as minhas pessoas nem os meus gatos
nem a criança que em vez de [eu] ficar lá longe
continua a brincar espantada com tudo o que existe.
