Diz o calendário que começou a Primavera. E começou bem. Pelo menos assim parece. Começou, como sempre, com o sol a brilhar, ainda que muito longe, não para todos… como sempre apenas para alguns, cada vez mais para menos, com uma leve aragem destemperada a avisar que o Inverno, o da chuva e do vento ainda não se havia despedido. Ou talvez a adivinhar que o outro inverno, o da desumanidade e da morte ainda estava longe de se ir embora, ameaçando fincar os pés no mundo e tornar-se dono de todas as estações. Aproveitei este ilusório momento para me sentar na pequena varanda onde me delicio com as tonalidades dos poentes e a confiança em mais um sopro de vitamina D. De imediato, ali poisou a meu lado, em cima da grade, uma pomba branca, com qualquer coisa no bico que me pareceu um pequenino graveto, semente e sonho de um futuro ninho, ou, quem sabe, um raminho de oliveira, mas o que a pomba branca trazia era uma minhoca, que engoliu sofregamente. Os sonhos não se engolem desta forma, vivem-se até se desfazerem com o tempo. Hoje, infelizmente, a pomba branca já não traz no bico um raminho de oliveira.
É habitual as aves poisarem ali, ou porque de tão alto lhes parece o céu fora do mundo ou porque, ao fim de tantos anos, sempre acreditaram que gostei de pássaros e passarinhos. Pouco tempo ali se deteve, talvez pensando que o mundo mudara, e a confiança não é hoje um lugar natural e seguro. Abriu as asas sem se despedir, desconsideração que nenhuma ave até então me fizera e voou pelo céu fora.
Lembrei-me do poema “As minhas asas”, de Almeida Garrett, que sabia de cor desde criança e que recitava na escola primária:
“Eu tinha umas asas brancas
Asas que um anjo me deu
Que em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu”.
E fiquei a pensar como seria tão fácil livrarmo-nos tão poeticamente dos sofrimentos da terra, como fazem os anjos e os seres humanos a quem eles ofereceram asas como neste poema. Bater as asas e voar, voar pelos céus do sonho, para bem longe dos pesadelos da terra. Decidi abandonar a cadeira, até porque o sol já estava bem mais quente… ou seria mais uma mentira das que inundam o mundo, e recolhi ao meu cantinho da sala. Liguei a televisão, e por todo o céu voavam bandos de mísseis com milhares de crianças no bico. Foi então que senti que se acabaram os anjos no céu e na terra, e só havia diabos de asas negras que em me eu cansando da terra de nada me valiam, pois já não haveria céu para onde voar, mas apenas inferno para me devorar.