As sílabas marginais/MG/Nelson Ferraz



MG
Um MG branco com pneus nas rodas.
Foi o meu primeiro carro com pneus nas rodas.
Um MG que não cheirava só a tinta.
Cheirava também a borracha, por causa dos pneus.
Nunca tinha tido um carro com pneus de borracha.
Nessa noite, sob a luz difusa que vinha da sala, deitei-me
E fiz uma estrada entre as dobras do lençol, bem junto ao queixo.
Semicerrei os olhos e acelerei pelas encostas do Douro acima.
Tabuaço era o pai. E era eu, às vezes, antes de crescer.
Cheguei.
Olhei o MG e medi a distância dali à cidade.
Ajeitei o lençol para que tudo ficasse mais perto, mais junto
E mais para sempre.
Acho que não resultou. Não, não resultou.
Um MG branco com pneus nas rodas.
Foi o meu primeiro carro com pneus nas rodas.
Durante algum tempo, fez grandes viagens num país de luz cinzenta
Um país que só era livre nas estradas que eu construía.
A luz cinzenta já vinha desde os carros de lata colorida
Que nunca tinham acelerado pelas encostas do Douro acima.
Até que o pai me deu um MG.
E, quase todos os dias,
Quando tudo dormia, preparava o MG,
Chamava pela minha mãe, pelo meu pai
E dizia-lhes: – Vamos!
E íamos, infância fora, em busca de um hoje
Que fosse tão branco quanto o meu MG.
Um MG com pneus nas rodas.
Um MG branco. Creio que era branco.
