AS SÍLABAS MARGINAIS/olhas os dias do abismo/por NELSON FERRAZ


olhas os dias de abismo que alguém colocou na casa despida
quando era de tarde e as nuvens principiaram a correr.
e o teu olhar foi tão água quanto a chuva que desceu
a parede das tuas memórias que são cordas acesas
de terra e de fumo.
buscas ansioso aquilo que o tempo não apagou
e folheias as árvores da rua solitária devorada
pelas ausências.
e o teu corpo diz o abecedário da saudade
com o vagar estendido sobre a tua cabeça.
serás sempre um projétil brilhante a desenhar
eternidade entre instantes do avesso.
uma labareda de poeira ao fundo da sala que não há.
às primeiras andorinhas és um portão.
um corredor. um pátio.
voa em ti um precipício de cinza.