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Será possível capturar o tempo? – por Josep Anton Vidal

 

Será possível capturar o tempo?

 

Eu responderia que não, pois o tempo só existe na tensão entre o “antes” e o “depois”.

 

Só os poetas da fotografia são capazes de mostrar num instantâneo a tensão dinâmica do tempo. Só os grandes da fotografia conseguem esse milagre. E nesta selecção de fotografias de José Magalhães, cumpre-se perfeitamente o milagre da fixação do instante como transição.

 

 

Esse milagre está nos rostos francos e abertos dos velhos, que nos fazem presente a história de séculos de vida.

 

Que nos falam de uma vida amarrada à terra, ao trabalho, ao esforço e ao cansaço de uma existência corajosa, sulcada pelo sofrimento e pelas derrotas do dia a dia, e no entanto, capazes ainda de nos abrir os olhos para um mundo original, natural, primevo, do qual são parte integrante… Eles dão-nos a dimensão humana da paisagem…

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O vento, a aridez, a rudeza da terra, o ardor do sol e o ímpeto das torrentes, o rigor do Inverno…, esculpiram-lhes os rostos ao mesmo tempo que esculpiam as formas da terra, ao mesmo tempo que abriam sulcos, abismos, barrancos e enxurradas.

 

E o milagre persiste, dos rostos francos e abertos dos velhos, até às mãos captadas gesto expressivo de explicar o reconhecer, no gesto sensivel de tocar, de rever perfis, contornos, volumes e formas… O que perseguem essas mãos, o que procuram? Vão ainda atrás de alguma coisa que querem alcançar ou então, como mãos de cego, constroem passo a passo uma paisagem interior, reflexo pessoal e íntimo das coisas vividas, conhecidas que nos recordam reflexo pessoal, íntimo, das coisas vividas, conhecidas, que nos lembram que, afinal, somos aquilo que vivemos, aquilo que nos rodeia, o que conseguimos transferir do espaço exterior, apto para os sentidos, para um espaço interior onde se encontram sensações, sentimentos, pensamentos, projectos e memórias;; esse espaço interior, tão, tão profundo, no qual a pessoa se constrói e se sabe a si mesma…

 

A realidade do espaço exterior e a imagem interior que gera não são o mesmo; uma existe em si mesma de maneira objectiva, e a obra faz-se, é modelada e construída na base de reflexos sempre diferentes. Como o reflexo nas águas de um lago que, embora copie fielmente o perfil das árvores, as formas do relevo, as nuvens que olham a superfície espelhada, são sempre diferentes, pela luz, pela brisa, pela hora… pelo olhar… Desde o rosto dos velhos até às mãos, o milagre repete-se. E repete-se também na paisagem.

 

Nestas fotografias, José Magalhães constrói um jogo de reflexos tão dinâmico como a vida de homens e mulheres. Existências plurais, surpreendentemente iguais umas às outras, e apesar disso, ao mesmo tempo, tão singulares na sua corporização e cada uma delas, afinal, irrepetível. No espaço restrito do enquadramento fotográfico, José Magalhães abre espaços infinitos, onde se torna impossível assinalar ou identificar limites precisos…O espaço prolonga-se nas sombras que se fundem no negro, duro, contrastado, ou prolonga-se na luz, que se perde também num espaço aberto, fora do alcance do olhar. E as formas precisas, presumivelmente tangíveis, confundem-se num jogo de reflexos que situa o olhar numa dimensão pessoal, reflexiva, conceptual. O espectador avança por um labirinto de espelhos onde nada existe sem o seu reflexo, nos seus múltiplos reflexos e onde cada reflexo nos remete para uma realidade sensitiva, objectiva,,, Não existe refúgio, não se pode evadir; nem encerrar-se no reduto íntimo da existência, nem diluir-se na realidade sensível. A paisagem, bem como as pessoas que dela fazem parte, é feita tanto de realidades, como de palavras, tanto de coisa tangíveis como de conceitos inapreensíveis. Nesta dialéctica, a palavra – o conceito, o verbo original, a vontade: “sei”, “existe”– se forja na paisagem, se constrói na realidade sensível, ao mesmo tempo que a paisagem se exprime na palavra e no conceito e só nela existe.

 

As fotografias de José Magalhães, capturam o tempo, pois captam a força criadora; aquela que, mostrando-nos um momento preciso, constrói espaços interiores nos quais o olhar se multiplica, se diversifica e prossegue por atalhos desconhecidos até chegar ao reduto profundo que cada um de nós habita e dentro do qual nos construímos. Esse espaço impreciso no qual o nosso mundo, o de todos e o de cada um, se faz palavra e nós com ela, se faz expressão do mundo.

 

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