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“A CRIANÇA E OS SEUS SORTILÉGIOS”, por Clara Castilho



 

 

 

A ópera de Ravel “L’ enfant et les sortileges” foi escrita em 1918, com libreto escrito pela escritora francesa Collette. Foi apresentada pela primeira vez em Março de 1925.

 

Inicia-se com a cena de um rapaz exasperado por ter que cumprir os seus deveres. O que ele gostava era de ir passear para o parque, puxar a cauda ao gato e andar atrás de toda a gente, em particular sua mãe. Mas a realidade é outra, a mãe pergunta-lhe se já terminou as suas tarefas. E ele responde-lhe deitando a língua de fora, provocador. E a punição não se faz esperar: “Comerás pão seco e chá sem açúcar”. Confrontado com esta frustração o rapaz explode a sua raiva, agredindo os animais domésticos e atirando objectos ao chão.

 

Mas os objectos que são alvo da sua ira animam-se e provacam grande balbúrdia. O rapaz foge para o parque onde se confronta com situações aterradoras e é batido e mordido por animais.

 

A situação só se amena quando ele acolhe um esquilo que cai e ele recolhe e de quem cuida, passando a ser olhado pelos animais de uma forma mais calorosa. E é assim que, pela sua boa acção,  consegue regressar para junto de sua mãe.

É uma obra acessível musicalmente às crianças e contem uma história repleta de conflitos típicos da fase edipiana com os quais muitas delas se confrontam.

 

 

– gatos

 

 

 

Esta obra foi inspiração para Mélanie Klein, psicanalista, que em 1929, a partir dela desenvolveu  e exemplificou algumas das suas teses.

 

Se for apresentada a crianças, num contexto em que tenham oportunidade de exprimirem o que vão sentindo, pode ser uma oportunidade para elaborarem as suas inquietações. Fui disso testemunha num contexto de trabalho em grupo com crianças entre os 9 e os 12 anos. Nelas surgiram manifestações de medo (quando os objectos tomam vida e quando os animais se tornam agressivos), regressões com pedido de colo e dedo na boca, o que provocou, o gozo de outras crianças e mas também possibilitou a discussão sobre essa atitude.

 

A leitura do libreto, acompanhada pelas árias, pode ser completada com desenhos que ajudarão à elaboração dos aspectos que mais as perturbam, sendo interessante ver como variam de criança para criança e quais as pontes que podemos fazer com as suas histórias de vida individuais.

 

A obra também pode ser aproveitada para ser rescrita pelas crianças e ser alvo de dramatização.

 

Ouvir trechos desta ópera pode, igualmente, ser a oportunidade para as crianças vivenciarem música de qualidade, contactar Arte enquanto expressão de emoções que se exprimirem de outra forma que não a palavra.

 

O pedagogo e psicanalista João dos Santos afirmava “ esclarecida através da experiência pessoal (de criar, compreender e participar na obra colectiva) a criança ficará apta a realizar aquilo que constitui o nosso ideal de psicólogos e educadores : o contacto com o Outrém e a sua obra”. E “ a educação através da arte é a que melhor permite a exteriorização das emoções e sentimentos e a sublimação dos instintos”.

 

 

 

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