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UM CAFÉ NA INTERNET – A Coquete, de Patrícia Highsmith. Tradução de Luís M. Maia Varela.

Um café na Internet

 

 

 

 

 

Era uma vez uma coquete que não conseguia desembaraçar-se do seu pretendente. Ele tomava a sério as suas promessas e confissões e não iria deixá-la. Até nas suas insinuações acreditava. Isto aborrecia-a, pois as coisas passavam-se como quando se travam novos conhecimentos: presentes, adulações, flores, jantares, etc.

 

Yvonne, por fim, insultou Bertrand, o pretendente, e mentiu-lhe, não lhe dando literalmente nada ─ o que era ainda menos que o nada que dava aos seus outros amigos. Mesmo assim, Bertrand não poria termo às suas deferências, dado que considerava o comportamento de Yvonne normal e feminino, um excesso de moderação. Yvonne chegou a repreendê-lo e, uma vez sem exemplo, disse a verdade. Como não estava habituado e esperava, antes, hipocrisia da parte de uma mulher atraente, tomou as suas palavras como uma evasiva e continuou a fazer-lhe a corte.

 

Yvonne tentou envenená-lo, deitando-lhe arsénico nas chávenas de chocolate, em casa, mas ele recompôs-se, encarando tal atitude como uma ainda maior e mais fascinante prova do seu medo de perder a virgindade com ele, muito embora ela a tivesse perdido aos dez anos, quando disse à mãe que tinha sido raptada. Assim, mandara ela para a prisão um homem de trinta anos. Durante duas semanas tentara seduzi-lo, dizendo-lhe que tinha quinze anos e que estava louca por ele. Dera-lhe prazer arruinar-lhe a carreira, tornar feliz e envergonhada a sua mulher e deixar na maior confusão a filha de oito anos.

 

Alguns amigos deram a Bertrand um conselho:

 

─ Andámos todos com ela, fomos com ela para a cama, talvez uma ou duas vezes. Tu nem isso tiveste. E ela não vale a pena!

 

Mas Bertrand pensava que era diferente, aos olhos de Yvonne e, embora pensasse que ela ultrapassava os limites da obstinação, via nisso uma virtude.

 

Yvonne incitou um novo pretendente a matar Bertrand. Conseguiu a sua lealdade, prometendo-lhe que casaria com ele, se eliminasse Bertrand. A este disse o mesmo, a propósito do outro. O novo pretendente desafiou Bertrand para um duelo, mas falhou o primeiro tiro, começando, então, a conversar com a sua futura vítima. (A arma de Bertrand recusara-se a disparar). Ambos descobriram que haviam recebido promessas de casamento. Entretanto, ambos lhe haviam igualmente oferecido presentes caros e lhe tinham emprestado dinheiro, nos momentos de crise dos últimos meses.

 

Estavam ressentidos, mas não lhes ocorria uma ideia para porem fim ao comportamento de Yvonne. Por isso, decidiram matá-la. O novo pretendente dirigiu-se-lhe, dizendo que matara o estúpido e persistente Bertrand. Nessa altura, este bateu à porta. Ambos fingiram lutar entre si. Na realidade, empurraram Yvonne de um para o outro e mataram-na com vários socos na cabeça.

 

Contaram que ela tentara meter-se entre eles e fora atingida acidentalmente.

 

Como o juiz da cidade tinha, ele próprio, sofrido e sido vítima da chacota popular por causa dos galanteios dela, ficou secretamente satisfeito com a sua morte, absolvendo ambos, sem qualquer problema. Era suficientemente esperto, para saber que eles não a poderiam ter matado, se não se tivessem apaixonado perdidamente por ela ─ estado que, desde que fizera sessenta anos, lhe inspirava compaixão.

 

Só a criada de Yvonne, que sempre fora bem paga e recebera gorgetas, foi ao seu funeral. Até a própria família a detestava.

 

 

Patricia Highsmith (1921-1995), de seu nome verdadeiro Mary Patricia Plangman, foi uma aclamada e original escritora policial norte-americana, talvez mais apreciada fora do seu país. A adaptação do seu livro Strangers on a train por Hitchcock (em Portugal o filme foi intitulado O Desconhecido do Norte-Expresso) tornou-a famosa em todo o mundo. Mary Helen Becker, na Collier’s, assinala que a escritora, em Plotting and Writing Suspense Fiction (1966),  nos diz ser frequente nos seus escritos opôr dois homens, com características pessoais diferentes. Escreve mais sobre personagens normais envolvidas nas consequências dos seus erros, do que sobre pessoas perturbadas, conseguindo assim fazer-nos sentir os seus complexos enredos mais próximos de nós. O presente conto faz parte da colectânea Little Tales of Misogyny, que saiu pela primeira vez em 1974, curiosamente em alemão. Em Portugal a obra foi publicada pela Teorema, a quem VerbArte cumprimenta, e pede compreensão por inserir esta história curta, mas representativa da obra da autora.

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