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O acaso assemelha-se a nós – Dulce Maria Cardoso

 

 

 

Dulce Maria Cardoso  O acaso assemelha-se a nós

 

 

 

(Adão Cruz) 

 

 

 

Mc9 diz: atrasaste-te.

Lily diz: tive de levar o Joshua à minha mãe. Ela tinha-lhe prometido um gelado.

Mc9 diz: onde é que vão comer o gelado?

Lily diz: no hotel.

Mc9 diz: claro. Que pergunta a minha.

Lily diz: custa-te imaginar um lugar com tão poucos sítios para ir, não é?

Mc9 diz: é verdade. Quais são os sabores de que o Joshua gosta mais?

Lily diz: chocolate e baunilha.

Mc9 diz: eu gostava de chocolate e morango. Ainda gosto, de vez em quando.

Lily diz: eu gostava de laranja e menta.

Mc9 diz: tenho pena de não te ter conhecido quando eras criança.

Lily diz: conheces-me agora.

Mc9 diz: às vezes ainda me parece impossível que te tenha encontrado.

Lily diz: em geral não se encontra quem está do outro lado do mundo.

Mc9 diz: de todas as distâncias que separam as pessoas, a geográfica deve ser a menos importante.

Lily diz: ainda assim. Talvez isto seja tudo um grande erro.

MC9 diz: tarde de mais. A ser um erro não me importo.

Lily diz: podemos sempre corrigi-lo.

Mc9 diz: amo-te.

Lily diz: não digas isso. Nunca me viste. Só em fotografias. Muitas vezes nem eu me reconheço nelas.

Mc9 diz: não te preocupes tanto. Vai correr tudo bem.

Lily diz: se calhar não sou nada parecida com o que te disse. Recriamo-nos sempre que falamos de nós. Se calhar enganei-te. Às vezes tenho tanto medo.

Mc9 diz: o julgamento é daqui a quatro meses. Depois vou ter contigo. Já não falta muito. Ou pelo menos já faltou mais.

Lily diz: parece uma história inventada. Mal inventada.

Mc9 diz: qualquer dia estou aí.

Lily diz: estou à tua espera.

Mc9 diz: se for condenado, se não puder ir ter contigo, não sei se aguentarei.

Lily diz: foi um acidente. Não te podem condenar por um aci­dente .

Mc9 diz: não falemos disso, por favor. Conta-me mais coisas do Joshua, de Birdsville, o que quiseres.

Lily diz: hoje o Joshua desenhou-se a ele e a mim. Deu-nos mãos muito grandes e pintou-nos de verde.

Mc9 diz: também gostava de ser verde e de ter mãos muito grandes.

Lily diz: também desenhou Birdsville.

Mc9 diz: o que é que ele desenhou?

Lily diz: casas e carros. Não sabe desenhar o deserto. Tenho a certeza de que ninguém é capaz de desenhar um sem-fim de terra encarnada. Hoje vendi uma viagem a um casal de velhos que nunca tinha visto o mar.

Mc9 diz: não conheço ninguém que nunca tenha visto o mar.

Lily diz: estavam casados há quarenta e quatro anos e nunca tinham ido além do deserto, daquele sinal que diz que é perigoso continuar e de que tanto gostas.

Mc9 diz: nunca mais deixei de pensar nele desde que me man­daste a fotografia. Ah, é verdade, tenho um presente para ti.

Lily diz: o que é?

Mc9 diz: é surpresa.

Lily diz: não me devias ter dito nada. Vou ficar o tempo todo a pensar nisso. O que é?

Mc9 diz: tens de ver por ti. Se te disser o que é não tem graça.

Lily diz: por falar em surpresas. A Ella soube este fim-de–semana que está grávida. Está tão feliz. O bebé vai nas­cer em Abril. Um novo amigo para o Joshua.

MC9 diz: conta-me mais uma vez o dia em que soubeste que es­tavas grávida.

Lily diz: já te contei tantas vezes.

Mc9diz: conta-me outra vez. É a única maneira de me tornar parte das tuas histórias. Assim, nunca mais te lembrarás desse dia sem te lembrares que mo contaste.

Lily diz: eu e o Riley decidimos ter um bebé. Durante cinco meses nada aconteceu. Começávamos a ficar tristes. Depois, num dia excepcionalmente quente, acordei enjoada. Pensei que fosse por causa do calor.

Mc9 diz: culpas sempre o calor.

Lily diz: verás que é impossível habituarmo-nos a viver no deserto. Mesmo que cá se tenha nascido como eu. É completamente impossível.

Mc9 diz: sempre achei que nos habituamos a tudo. Que, de todos os animais, somos os mais adaptáveis. Continua a contar a história.

Lily diz: como o enjoo não passava, à tarde fui a uma far­mácia que existia no bairro novo e comprei o teste. Fi-lo logo que cheguei a casa. Tremiam-me as mãos, as pernas, o corpo todo. Sentei-me na borda da banheira e fiquei à es­pera. Havia o tal pássaro que não parava de cantar. Lembro-me de pensar que cantar era uma forma de o pássaro resis­tir ao calor, ou melhor, à morte.

Mc9 diz: que pássaro era?

Lily diz: perguntas-me sempre isso. Já te disse que não sei.

Mc9 diz: podias ter descoberto entretanto.

Lily diz: não me interessa saber que pássaro era.

Mc9 diz: continua.

 

Lily diz: fiquei à espera com o relógio numa mão e o teste na outra. Mudou de cor. Ficou azul. Um azul muito clarinho. Telefonei ao Riley e disse, parabéns ao pai. Ele disse que me amava e desligou de seguida. Fiquei um boca­do aborrecida com o que julguei ser indiferença. Não era. Ele inventou uma desculpa no emprego e veio-se embora. Apareceu aqui pouco depois. Trazia um ramo de nove rosas vermelhas. Fomos jantar fora. Estávamos os dois muito boni­tos . O Riley abriu a porta do carro para eu entrar, o que já não fazia há algum tempo. Também puxou a cadeira do res­taurante para eu me sentar.

Mc9 diz: tenho muitos ciúmes dele.

Lily diz: porquê? Eu não tenho ciúmes da tua ex-mulher.

Mc9 diz: nunca te disse que a amei muito e que fui muito feliz com ela. Tu dizes sempre que o amaste muito e que foste muito feliz com ele.

Lily diz: é verdade.

Mc9 diz: não te espanta ter acabado?

Lily diz: todas as histórias de amor acabam. A minha que foi feliz, a tua que foi infeliz, todas. A nossa, se é que a nossa é uma história de amor, também acabará um dia.

Mc9 diz: não gosto quando dizes isso.

Lily diz: os amores lúcidos são mais resistentes. Ainda assim estão condenados a acabar, como os não lúcidos.

Mc9 diz: fala-me do Riley. Diz-me que ele tinha mau hálito, que não cortava as unhas dos pés, qualquer coisa que me faça sentir melhor. Não, a sério, conta-me outra vez como se conheceram.

Lily diz: conhecemo-nos, apaixonamo-nos e não vivemos feli­zes para sempre. Não me faças contar tudo outra vez. Estou cansada. E sou lenta a escrever no computador. Para além de que passo todo o dia a olhar para um ecrã. Doem-me os olhos. Já é muito tarde aí. Não vais dormir?

Mc9 diz: ainda não.

Lily diz: devias ir deitar-te. De qualquer maneira tenho de ir buscar o Joshua.

Mc9 diz: não consigo dormir.

Lily diz: toma um comprimido.

Mc9 diz: estou farto de tomar comprimidos.

Lily diz: daqui a uns meses acaba tudo.

Mc9 diz: já nem me consigo lembrar de mim antes de tudo ter acontecido. Nem sequer me parece possível ter existido antes. Às vezes sinto que a matei. Como se lhe tivesse apontado uma arma à cabeça e disparado. Se calhar é irre­levante o que quer que o tribunal decida.

Lily diz: foi um acidente. Tens de te convencer de que foi um acidente. Querias salvá-la. Não te podes culpar por a teres querido salvar. É essa a obrigação de qualquer médico.

Mc9 diz: eu sabia que podia correr muito mal. No entanto aceitei o risco. Estou sempre a falar do mesmo assunto. Desculpa.

Lily diz: não tens de pedir desculpa.

Mc9 diz: devia ter-me bastado com o papel de ajudante de Deus. Um ajudante capaz de corrigir pequenos defeitos que Lhe es­capam. Um nariz torto, mamas pequenas, rugas. Nada de mal vinha ao mundo. Mas quis mais. Quis desafiá-Lo.

Lily diz: querias salvá-la.

Mc9 diz: quis experimentar o poder da vida e da morte. O poder supremo de Deus.

Lily diz: não acredito em Deus. Salvaste muitas pessoas que eram muito infelizes.

Mc9 diz: a infelicidade é em grande parte uma escolha. A doen­ça não. Os meus doentes não eram impotentes perante o so­frimento como em geral os doentes são.

Lily diz: a infelicidade não se escolhe. Ninguém escolhe ser infeliz. É uma coisa que acontece. Penso muitas vezes que gostaria de mudar partes do meu corpo. Mas, pelo menos por agora, não chego a ser infeliz por causa disso.

Mc9 diz: é tranquilizador saber que podemos mudar. Na maior parte das vezes basta-nos isso.

Lily diz: não gosto dos meus braços. São muito gordos. E não me importava de ter outros lábios. Mais desenhados. Também gostava de ter outra vez o peito que tinha antes de o Joshua ter nascido. E a barriga lisa. Queria o meu corpo novo outra vez. O meu corpo é um corpo gasto. Tenho medo que fiques muito desiludido.

Mc9 diz: já comecei a perder cabelo e doern-me os joelhos quan­do me dobro. Nem eu nem o meu corpo somos novos.

Lily diz: tenho tanto medo do nosso encontro. Como é que deixámos que isto nos acontecesse? Não temos desculpa.

Mc9 diz: não precisamos de desculpa. Nunca imaginei que pu­desse acontecer, mas ainda bem que aconteceu.

Lily diz: não tenho a certeza disso. Se soubesse o que ia acontecer não sei se teria continuado a falar contigo. Sonho muitas vezes com o nosso encontro. A maior parte das vezes corre bem, mas há algumas em que estamos pro­fundamente desiludidos. Só queremos fugir um do outro.

Mc9 diz: ainda hoje de manhã me lembrei da primeira vez que falámos. Eras o anjo-bêbedo. Nesse dia, também estavam na sala o anjo-caído e o doce-anjo. Nunca tinha visto tantos anjos juntos.

Lily diz: foi o mais perto que pudeste estar do céu.

Mc9 diz: perguntei-te com que é que os anjos se embebedavam. Demoraste muito tempo a responder-me.

Lily diz: estava ocupada. Tu não paravas. Pensei que eras doido.

Mc9 diz: em geral não insistia tanto. Não sei o que é que me deu.

Lily diz: disseste que estava a perder a oportunidade de falar com o homem mais interessante que podia conhecer.

Mc9 diz: agora já sabes que não estava a exagerar.

Lily diz: foi aí que te disse a tal frase que vi num filme. Não sejas tão humilde que não és assim tão excepcional.

Mc9 diz: nunca descobri que filme é esse.

Lily diz: também não me lembro. Só sei que pertence a um filme. A memória é espantosamente insuficiente. A memória e a imaginação devem muito uma à outra.

Mc9 diz: tens razão. O meu avô costumava dizer que a memória é quase a mesma coisa que o arrependimento. Só recordamos o que não vivemos plenamente.

Lily diz: não tenho assim tanto de que me arrepender.

Mc9 diz: sortuda.

Lily diz: sempre foste visitar a tua mãe ontem?

Mc9 diz: não. Não me apeteceu. Vejo-a daqui a uns dias na festa de anos do meu pai. De qualquer maneira deve andar muito ocupada com os preparativos.

Lily diz: não te esqueças de tirar fotografias.

Mc9 diz: mandei-te agora mesmo uma canção.

Lily diz: obrigada. Gosto sempre das canções que me mandas. Agora tenho mesmo de ir buscar o Joshua.

Mc9 diz: quando aí estiver vou levá-lo a comer um gelado e ao parque dos escorregas amarelos. E vou ensiná-lo a andar de bicicleta. E a pescar. Há tantas coisas que quero en­sinar-lhe.

Lily diz: terás muito tempo. Agora tenho mesmo de ir. Vou desligar.

Mc9 diz: amo-te.

Lily diz: não digas isso. Até amanhã.

Mc9 diz: até amanhã. E é verdade que te amo.

 

(in Maria Dulce Cardoso, O Chão dos Pardais, ASA)

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