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UM CAFÉ NA INTERNET – Será necessário haver um Acordo Ortográfico?, por João Machado

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É um tema que não me tem preocupado muito. Inclino-me mais para pensar que o Acordo não é necessário. Na sua génese (tal como na dos anteriores acordos), sem dúvida, pesaram mais razões de natureza política e comercial do que propriamente linguísticas. Não deixar enfraquecer os laços que nos ligam ao Brasil, é o que se sente por detrás dos argumentos que nos apresentam. E mais recentemente, manter os laços com Angola, Moçambique, Cabo Verde, Timor, Guiné … e mais países, por onde os portugueses passaram e ainda hoje se fala a nossa língua. Claro que o Brasil tem uma importância especial. São 200 milhões de pessoas a falar português.

 

Oficialmente, procura-se apresentar os acordos como uma maneira de salvaguardar que o português que se fala em Portugal seja idêntico ao que se fala no Brasil, em Angola, Moçambique e mais países lusofalantes  (será um termo novo? estará bem formado?). Não sei se para isso será preciso um acordo oficial, com todos os ff e rr (estará bem dito assim?). Vou referir um argumento estafado: a Inglaterra e os EUA nunca oficializaram qualquer acordo ortográfico, já se separaram há 230 anos, ou mais, e continuam a falar e escrever a mesma língua, com poucas diferenças.

 

É natural que, quando há emigração, os falantes de uma dada língua que passaram a viver longe da pátria, ao fim de algum tempo, tendam para adoptar novas formas de falar e escrever. As línguas estão em permanente evolução, porque sobre elas pesam vários factores. Mas permitam-me que lhes apresente um pequeno trecho de Guimarães Rosa. Digam-me se há razões para temer alguma cisão linguística, apesar do peso enorme de um meio tão diferente:

 

“Mas levei minha sina. Mundo, o em que se estava, não era para gente: era um espaço para os de meia-razão. Para ouvir gavião guinchar ou as tantas seriemas que chungavam, e avistar as grandes emas e os veados correndo, entrando e saindo até dos velhos currais de ajuntar gado, em rancharias sem morador? Isso, quando o ermo melhorava de ser só ermo. A chapada é para aqueles casais de antas, que toram trilhas largas no cerradão por aonde, e sem saber de ninguém assopram sua bruta força. Aqui e aqui, os tucanos senhoreantes, enchendo as árvores, de mim a um tiro de pistola ─ isto resumo mal. Ou o zabelê choco, chamando seus pintos, para esgaravatar terra e com eles os bichinhos comíveis catar. A fim, o birro e o garrixo sigritando. Ah, e o sabiá-preto canta bem. Veredas. No mais, mortalma.”

 

Esperam que tenham gostado deste trecho de Grande Sertão: Veredas. Fica nas páginas 330-331. Ler, escrever e falar a língua, é o que a conserva. Umas mudanças, algumas inovações até ajudam ao seu charme (gostaram do termo?). E não há acordo, ortográfico de outra natureza, que as impeçam. Ora leiam outro trecho (só uma frase), agora do Erico Veríssimo, do conto Faustino que há dias publicámos aqui n’A Viagem dos Argonautas:

 

“Manda para o inferno a funesta experiência da vida que tanto o alontana da pureza infantil”.

 

Quando dei com o alontana fiquei a olhar. Fui ver ao Aurélio, nada. Mas o José Pedro Machado dá-nos alontanar, verbo transitivo (do italiano lontano): fazer aparecer afastado ou distante. O Erico Veríssimo era de Rio Grande do Sul, onde há imigrantes italianos. Julgo que não será exagerado presumir de alguma influência. Isto afecta a língua?. A minha modesta opinião é:em nada. Mas entre os argonautas, e entre os nossos leitores, há com certeza muitas pessoas mais abalizadas do que eu, para opinarem sobre a matéria.

 

 

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