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UM CAFÉ NA INTERNET – QUOTIDIANO, por Fernanda Botelho

(1926 – 2007) 

Um café na Internet 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sou eu. Sabes quem sou?

Não, não digas nada.

Sei apenas que estou

acabrunhada.

E se inclino o rosto,

se pareço uma pirâmide truncada

com sobrecasaca de frio,

é porque não gosto

de puxar o fio

à meada.

 

(Escadas escuras,

subidas dia a dia.

Pernas cansadas

e solas gastas.

Harmonias acabadas

num gesto torvo.

Tremenda nostalgia

de iluminações vastas

e de calçado novo).

 

Pernas cansadas? Sim.

Magras? Talvez.

Aqui, onde me vês,

já fui assim

… roliça,

como bocejo na hora da preguiça…

 

Aqui, onde me vês,

não é a mim que me vês.

É a magricela

que sobe aquela

escada de sonhos desiguais

que me constrangem.

─ E ainda para mais

os meus sapatos rangem.

 

In As Coordenadas Líricas, 1951. Fui buscar este poema às Líricas Portuguesas, 3.ª Série. Portugália Editora, 1958, com selecção, prefácio e notas de Jorge de Sena.

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