(1920 – 2004)
Um café na Internet
Este vento do céu
que sopra rijo e firme
como o aço de um punhal,
sepulta-me entre escombros e rochedos
e varre-me entre ramas de olival.
Vou louca e leve como folha seca.
Espero não sei que perfumada onda.
Cântico à neve, que me cegue e leve,
me leve e me responda.
E enquanto escuto, como escuta o ermo,
oiço os campos e o tempo.
Sussurro secular de bocas frias
como convém a órbitas vazias…
Mas, louca e leve como folha seca,
espero não sei que perfumada onda,
fogo do céu que me destrua e leve
me espalhe aos quatro ventos e em esconda.
In Poemas, livro que terá saído em 1957. Fui buscá-lo às Líricas Portuguesas, 3.ª Série, Portugália Editora, 1958. Selecção, prefácio e notas de Jorge de Sena.
