Um café na Internet
O meu mundo é flutuante, ou uma Atlântida
/reduzida a escala de mim própria.
Quanto a mim, sou um pássaro errante,
à procura dum rumo que não seja a morte.
Se me demoro em ti, é porque, ao penetrar no teu olhar azul
/- meu mar improvisado -, passei a ser um peixe imensamente
/livre, incrivelmente ágil.
Não cerres os olhos que é inútil.
Minha morada aqui é breve:
o tempo dum sorriso, ou de ternura,
não do fruto que o sol amadurece.
Não me suponhas raízes, nem fales
do que não me interessa. Sou
apenas um pássaro contra o vento norte,
à procura dum rumo que não seja a morte.
in “Luz de Intimidade” (2004)
Maria João Reynaud nasceu no Porto, cidade onde é professora da Faculdade de Letras.
Doutorou-se em Literatura Portuguesa com uma dissertação sobre as três versões de "Húmus", de Raul Brandão (1977).
Para além da colectânea poética indicada, participou em várias antologias poéticas.
Como ensaísta, salienta-se ainda "Metamorfoses da Escrita" (2000) e "Fernando Echevarría - Enigma e Transparência" (2001).


