Site icon A Viagem dos Argonautas

A crise financeira actual tem o estranho perfume dos anos 30, por Frédéric Salat-Baroux. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

Aos visitantes, aos leitores, aos viajantes Argonautas

 

Hoje, por mero acaso, ao pesquisar textos   sobre a séria questão da desindustrialização europeia deparo-me com o texto de Frédéric Salat que imediatamente traduzi para o disponibilizar a todos os que por estas   águas naveguem.  Por aqui passam  muitos dos pontos de vista ontem expostos, até a referência ao movimento de jovens  Occupy Wall Street, com   um pequeno detalhe,  trata-se de  pontos de vista vindos de um homem com quem politicamente nada a tenho a ver., durante muito tempo  o principal  conselheiro de Jacques Chirac. Algo está muito mal quando isso acontece, e é também nestes termos  que começa o seu texto.  


E  certo de que este texto  os  fará  reflectir sobre o momento que passa, desejo boa leitura..

 

Júlio Marques Mota

 

 

A crise financeira actual tem o estranho perfume dos anos 30

 

Frédéric Salat-Baroux, antigo secretário geral da presidência da República Francesa de 2005 para 2007 e actualmente Conselheiro de Estado

 

Quando personalidades tão inconciliáveis como Arnaud Montebourg, Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon sopram sobre as mesmos brasas é porque, de facto, um mal profundo está a fazer os seus fortes estragos. Ao tema destrutivo que foi o do pacifismo, que vigorou entre as duas guerras, sucedeu-se depois o do proteccionismo. Mas sendo salvaguardadas todas as proporções é certo que o perigo é o mesmo, é o medo de enfrentar a realidade: ontem a guerra inevitável contra a Alemanha nazi; hoje a guerra industrial. Quantas semelhanças sobre a natureza do sal que estes tribuno atiram sobre as feridas de uma sociedade em sofrimento: soluções que dão a ilusão que da situação se poderá sair sem estar a eentrar em combate : a linha Maginot ontem, os direitos aduaneiros ou a saída do Euro hoje; bodes expiatórios: a finança dita cosmopolita naquela época, os bancos desde 2008; o questionar a legitimidade do regime, os ataques contra a República nos anos 1930, o tema da VI República actualmente. E seguramente o tema “tudo muito pobre, tudo muito corrompido”.


Esta nova vaga de populismo é ainda mais mais perigosa porque tem as suas raizes numa tripla crise.


Primeiro, uma crise industrial, que dá o sinal de alarme sobre a dominação sem distinção do Ocidente. No momento decisivo dos anos 90, e apesar da resistência das populações, foi tomada a decisão de deslocalizar uma parte crescente da produção industrial para a China e para os países emergentes. Entontecidos pelo nosso sentimento de poder, nos pensávamos assegurar assim o máximo de lucros e aos preços mais baixos. Para os países transformados em fábricas, acreditava-se, ficam as produções básicas, para nós as tecnologias inovadoras. Como todas os grandes objectivos monstruosos este objectivo foi atingido para além todas as expectativas: em vinte anos o Ocidente perdeu a sua primazia industrial. Os capitais deslocaram-se para a China, pata a Índia ou para o Brasil. Estes países, envolveram-se numa corrida sem tréguas à inovação, colocam-se agora na posição de senhores da economia mundial. O Ocidente defende-se nos seus últimos redutos, nos seus últimos bastiões ( as tecnologias da informação da costa ocidental americana e a indústria mecânica alemã), sob a morfina da dívida e dos défices mas sobretudo sem a capacidade de sobressalto moral, porque apanhado pela cangrena da forte subida de desigualdades, traços fortemente negativos de l’Ancien Régime”. Como nos anos da década de 30, não vimos aparecer em crescendo os perigos, subestimámos a vontade de poder dos nossos concorrentes e chegamos esgotados, arrogantes e mal preparados para a batalha essencial deste início do século XXI, a do superioridade industrial.


Num Ocidente que está a perder importância, a Europa aí acrescenta  uma segunda crise ligada à ambiguidade dos princípios sobre os quais esta foi construída. Nunca diferenciámos com nitidez entre a lógica federal dos Estados Unidos da Europa e a de uma zona de cooperação entre nações soberanas. Sem ter clarificado este dilema, a criação do euro foi ditada por uma vontade política: ancorar a Alemanha na Europa depois da reunificação. Acreditou-se que era possível conciliar federalismo monetário e manutenção de uma soberania orçamental, mal temperada esta por critérios de convergência, quase imediatamente não respeitados. A frase de Helmut Kohl, aquando da criação do Euro, ilustra esta lógica: “a decisão está tomada. É uma questão de guerra e de paz. E cabe-vos a vocês financeiros e economistas fazê-la  funcionar”. Retrospectivamente, mede-se as razões da reserva dos Franceses em ratificar o Tratado de Maastricht. A política monetária de inspiração alemã, conduzida pelo BCE (euro forte ou antes euro caro e luta contra a inflação) laminou o modelo industrial dos países do Sul (Itália, Espanha) assente sobre as desvalorizações competitivas.


A Alemanha, que impôs as suas regras, encontra-se confrontada com a armadilha do euro: dado que os países enfraquecidos pela sua política monetária já não podem honrar as suas dívidas, cabe-lhe primeiro a ela garanti-las o que revolta o seu povo que desde há dez anos realizou um imenso esforço de correcção da sua competitividade. De cimeira em cimeira, ganha-se tempo mas não se decide nada, por falta de interesses convergentes e de liderança. Mas o período de contagem sobre a explosão do euro já está lançado, porque o BCE não poderá continuar a funcionar como sejam os bombeiros e isso tanto quanto se perfila em 2012 para a Itália um muro de mais de 200 milhares de milhões de dívidas a renovar.


Como numa tragédia grega, os efeitos da terceira crise, a de 2008 criaram uma situação de não retorno. Os Estados precipitaram-se em planos de resgate e de reactivação económica, que levaram os défices e a dívida à níveis provavelmente nunca atingidos em tempos de paz. Vista a situação pelo lado das pessoas, esta situação é intolerável: nenhuma lição foi tirada da crise, nem sequer mesmo o regresso à separação entre os bancos de depósitos e os bancos de investimento (uma proposta apresentada como revolucionária por Arnaud Montebourg mas que não é nada mais que o retorno à lei Glass Steagall Act americana dos anos 30 ou à lei francesa de 1945 revogada… em 1984). Em contrapartida, é às populações que a factura é apresentada através de planos de austeridade e do aumento dos impostos de uma grande violência.


Os ataques dos mercados (perda do triplo A americano, baixa das bolsas, desconfiança no que diz respeito à dívida dos países do Sul) não são especulativos mas políticos. Tudo isto sanciona a ausência de estratégia credível e coordenada de saída de crise. Entrando espantosamente em consonância com o movimento dos Indignados ou com o“Occupy Wall Street”, tudo isto anuncia uma sanção eleitoral à escala mundial enquanto que se perfilam as eleições na França, nos Estados Unidos, na Alemanha, na Espanha e na a Itália.


A campanha presidencial que se abre não deve conduzir a adular este populismo que agora encontrou com o movimento anti-mundialização o seu corpus ideológico, com o risco de criar para amanhã todas as condições de forte perturbação social.. Nenhuma experiência de economia fechada se traduziu na história por uma sociedade próspera. Quem pode acreditar que os nossos vizinhos europeus nos seguirão nesta via enquanto que a Alemanha e a Escandinávia provaram que se podem situar no primeiro plano de uma economia mundializada obtendo os meios para isso . Será possível, razoavelmente, poder-se imaginar uma solução meramente francesa enquanto que milhões de assalariados trabalham para a exportação e que não temos nenhuma capacidade poderosa nem de crescimento (nem de convergência económica em perspectiva, nem forte expansão demográfica, nem grande avanço tecnológico)? Ao mesmo tempo, os vencedores de hoje como a China encontram-se perante tensões salariais e já estão a serem confrontados com pesados problemas ligados ao envelhecimento e ao peso da dívida interna.


Também não é questão de nos afundarmos numa visão angélica da economia de mercado segundo a qual, por definição, todos ganhariam. Como noutros tempos, é necessário fazer a escolha de nos reunirmos, de nos equiparmos face aos novos desafios do mundo e de questionar os tabus tanto de direita como de esquerda.


Os dirigentes que terão conseguido salvar-se ou aqueles que assumirão os comandos serão confrontados, com efeito, com dificuldades nunca vistas desde a segunda guerra mundial. Em França, não rectificaremos as nossas contas públicas sem uma reforma fiscal que permita maior justiça mas, não nos iludamos, que se irá traduzir num forte aumento das cobranças de impostos sobre os Franceses.


Também não poderemos fechar os olhos sobre o impasse das 35 horas, que nos conduz a financiar de maneira permanente pelo défice e pela dívida (pelo menos 15 mil milhões de euros por ano), o custo para as empresas de uma velha reforma de cerca de 15 anos e que errou o seu objectivo de criação de empregos. Não reabsorveremos o défice da Segurança Social e não responderemos aos problemas da dependência a não ser trabalhando mais para contribuir com mais impostos.


Do mesmo modo não poremos em bom funcionamento o nosso aparelho produtivo a não ser restaurando o papel do Estado como actor do desenvolvimento industrial, pela instauração de uma taxa de IVA social, que é uma forma ofensiva de reequilíbrio das condições do comércio mundial, ou levantando a questão da recentragem de Electricité de France sobre uma actividade estritamente nacional, a fim de garantir às nossas empresas o preço da energia mais baixo, ou mesmo e se tal for necessário para atingir este objectivo decidir pela sua renacionalização a 100%.


No domínio europeu, impõem-se também revisões radicais. Não sairemos da crise do Euro por medidas técnicas mas pela escolha da realização da construção europeia. Não pode existir moeda única sem convergência orçamental e, a prazo, sem convergência fiscal, ou seja sem um federalismo económico. Só assim será então possível pôr em marcha os instrumentos de saída de crise que são os Eurobonds. A Europa deve criar os meios para poder enfrentar o desafio industrial e nomeadamente fazer com que a sua política monetária e o seu direito da concorrência sejam instrumentos de crescimento e de conquista de mercados.


Em vez de nos afundarmos nesta forma de disfarçar o seu derrotismo que simboliza o tema do proteccionismo, retomemos do nosso vocabulário político estas palavras forjadas pelo Conselho Nacional da Resistência na Libertação: União nacional, ambição industrial, esforço.

Exit mobile version