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OS HOMENS DO REI – 82 – por José Brandão

 

António Alves Martins, Bispo de Viseu (1808-1882)

 

 

Foi prelado católico e político liberal, e soube exemplarmente harmonizar os deveres pastorais com a honestidade administrativa. Nasceu em Trás-os-Montes, na Granja de Alijó, em 18 de Fevereiro de 1808, de pais humildes, mas de comportamento que lhe deu as primeiras lições da sua arte de bem servir, e morreu em Viseu, no seu Paço de Fontelo, em 5 de Fevereiro de 1882. Era sua intenção dedicar-se ao professorado universitário, e para isso se matriculou na Faculdade de Artes, mas em 1828, no seu terceiro ano de curso, proclama-se D. Miguel rei absoluto, e o jovem franciscano, levado pelo entusiasmo liberal, abandona a Universidade e colabora na reacção antimiguelista, atribuindo-se-lhe responsabilidades na revolta do Porto. Expulso da Universidade, regressa à calma conventual, e ali se aplica aos estudos abandonados. Em 1832, porém, tendo ido, pouco antes do desembarque das forças liberais no Mindelo, por ordem de seus superiores, exercer uma capelania na Armada, função confiada à ordem franciscana, não tardou que fosse novamente julgado em reincidência, sendo condenado à morte.

 

Segue-se ao julgamento a trágica situação sua e de outros três companheiros condenados, com quem fugira à escolta que os conduzia. Junto do Mondego, perto de Vila Verde, surpreendem sentinelas do exército miguelista, ocultam-se numa salina, e durante quatro horas ali estiveram, cheios de frio e fome, arrepiados de medo, até que puderam atravessar o rio e dirigir-se a Leiria, onde se apresentaram ao tenente-coronel Vasconcelos, mais tarde visconde de Leiria. O frade consegue curar-se do tifo nessa aventura contraído, e como o triunfo liberal o livra da execução, volta à Universidade, para ali frequentar, com altas classificações, a Faculdade de Teologia, a cujo magistério concorre. Como, porém, demorasse o acesso à cátedra, concorre à cadeira de História e Geografia no Liceu do Porto.

 

Entretanto, havia-se iniciado na actividade política, como deputado, e na actividade administrativa, como enfermeiro-mor do Hospital de S. José, numa e noutra função revelando qualidades que lhe deram notoriedade. D. Pedro V quis galardoá-lo com a Comenda da Conceição, mas Alves Martins recusou-a. O cumprimento do dever – declarou não excedia a actividade normal exigida, por isso não havia razão para prémio. Foi, porém, apresentado como bispo de Viseu em 2 de Julho de 1862, e em 25 de Setembro tomava posse por procuração.

Como prelado entendeu poder continuar a servir a Pátria em sua carreira política, porque a Pátria e a Igreja passavam pela mesma crise naquele momento de conflito entre o absolutismo da tradição e a liberdade em ensaio.

 

Tinha o prelado ido a Roma, em 1864, à celebração do centenário de S. Pedro. Na saudação com que os bispos, na Capela Sistina, responderam à do Pontífice, formularam-se votos pela observação do poder temporal e pela definição do dogma da infalibilidade pontifícia. D. António Alves Martins já tinha retirado para Paris, quando foi informado de que a saudação fora posteriormente assinada por todos os presentes e o seu nome nela figurava. Foi imediato o seu protesto, pois discordava de tais votos. Respeitou-se-lhe a leal e corajosa atitude, e, conforme à sua exigência, a sua declaração foi registada em acta na Legação de Portugal em Roma, onde uma comissão de três prelados lhe tinham ido explicar que fora engano a indevida inscrição.

 

O prelado de Viseu foi ministro do Reino por duas vezes – de 1869 a 1871, com os chamados históricos, que constituíam o partido considerado mais avançado.

 

O prelado viseense não seria de zelo muito eficaz na pregação verbal da Fé, mas era-o no exercício prático da Caridade. Todos os seus proventos eram património dos pobres, sem sobras para enriquecer os parentes, nem para luxos no Paço de Fontelo, onde se finou em 1882.

 

A seguir – Alexandre Herculano

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