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2 -A Epistemologia da Infância: Ensaio de Antropologia da Educação – por Raúl Iturra

(Continuação)

 

2. A epistemologia

 

Este é um conceito que tem sido debatido, até à exaustão, ao longo do tempo, porque diz respeito à origem do saber. A questão foi colocada já por S.Tomás de Aquino nos seus comentários sobre a Metafísica de Aristóteles. No seu texto Summa Theologica, na questão 85 do Livro I, ele discute que o saber existe não apenas porque os seres partilham um mesmo atributo,mas porque pertencem a uma mesma espécie. “Que Juan y Pedro tengan la misma calidad de ser hombres, es apenas una universalidad mental, no una realidad que exista fuera de la mente. Porque fuera de la mente hay categorías de especies que no constituyen universalidad bien como hay especies que comparten formas sustantivas de ser” .

 

O problema é que S.Tomás de Aquino, na sua interpretação dos textos Metafísica y Categorias de Aristóteles, fala das ideias inatas ou existentes em nós ao nascermos por sermos entidades lógicas que procuramos o antecedente e o consequente de uma realidade que é evidente para quem pertence a uma mesma categoria. Somos seres que entendemos e procuramos a lógica do antecedente e do consequente ou o denominado silogismo. Quando Aquino diz no texto citado “Juan es hombre, Pedro es hombre”, refere uma universalidade de factos existente entre os dois, situação que faria deles uma universalidade se não houvesse categorias de factos. Estas diferentes categorias, são aquelas às quais pertencem os seus antecedentes dentro da sua categoria ou espécie. A estas diferenças correspondem diferentes formas de ser ou naturezas. Para Aquino, que influenciou a forma de pensar a partir do Século XIII até aos nossos dias pela teoria denominada Escolástica, o saber ou a epistemologia faz parte da natureza própria do ser humano.

 

Este é capaz de entender e distinguir de forma ordenada, a partir das constatações externas e de forma argumentativa, de provar a partir da denominada substancia ou especificidade do facto, a sua origem, espécie e o seu destino. Aquino não põe em causa as formas de saber, de aprender ou a epistemologia. Estudioso, tinha uma base muito determinada de pensamento: acreditava na existência de uma divindade que era a origem de tudo. No entanto, na sua época, a divindade começava a não ser suficiente para explicar todas as lógicas, ou a razão. Passou a ser necessário, pelo desenvolvimento do saber Escolástico, a prova da hipótese. Era necessário exprimir o que estava em frente a nós, pondo de lado tudo o que fosse prova da divindade. O pensamento da civilização Ocidental, como também da Oriental , entrou pela filosofia com mais calma que Descartes , Spinoza , Hume , Stewart Mill , Hegel, Feurebach e Marx .

 

Talvez, de forma calma e serena usada por Durkheim , Mauss e Weber . Simples e directa, quase como uma criança. Não tinha que provar nada, a verdade dava-se por adquirida e governava o mundo dentro do qual os autores citados tiveram que irromper e debater para entender a realidade sem recorrer à divindade. Entre Descartes a Hegel, há duas formas de entender o real: a primeira, é liderada por Descartes e diz que a única certeza que existe, é a dúvida metódica para entender o real, isto é existem ideias inatas nos seres humanos. A partir de Hume, a realidade era a prova da existência empírica dos factos.

 

As opiniões surgiram também divididas entre os idealistas hegelianos e os materialistas ou historicistas, que procuraram o contexto do desenvolvimento humano para entender a vida. Sabemos bem que é a partir de Feurebach e Stewart Mill, que a lógica muda para a procura da verdade, até chegarmos aos autores que procuram os factos na interacção social e as formas de acreditar simbólicas sobre a vida e a matéria. Este é o caso dos três autores citados na comprida lista já referida: os fundadores das Ciências Sociais, seja Sociologia, Antropologia, Economia ou outras. As provas já não são filosóficas: a partir do pensamento de Marx, Durkheim, Weber e Mauss, procura-se relacionar os valores económicos do mercado, como foram definidos por Adam Smith . O pensamento de Adam Smith foi a base da tese de doutoramento de Émile Durkheim .

 

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Notas

 

 

[1]. Aquino, Tomás, (1267-1273) 1998: Summa Teologica, Questión 85 “Sobre el conocer: modo y orden”,  artículos 1 a 8, página 773 a 778 do Vol. I, Editorial BAC, Madrid.

 

[1] Aristóteles, (384.383) 19988: Metafísica, Editorial Gredos, S. A., Madrid. Categorias (322) 1994, Guimarães, Lisboa.

 

[1] Abur Nsasr al-Fârâbî,  ou Avennasar( 959) 1964: La politiquee Livre de la communauté religieuse ( Kitâb al-milla), editado em Beirut 1964  por Fauzi M. Najjar, introduz a lógica de Aristóteles no pensamento muçulmano ou do Islão. É comentado em 1994 em Saber religioso y poder político en el Islam, vários autores, Ed. Agencia Española de Cooperación Internacional, Madrid, 1994, bem como pelo editor de 1992 da Étique à Nicomaque de Aristóteles, no Dossier do texto.

 

[1] Descartes, René, Discour sur la Méthode de 1637 e Méditations de 1641, versão portuguesa, Porto Editora, 1986.

 

[1] Spinoza, Baruch, (1670) 1992: Ética, Relógio d’Água, Lisboa.

 

[1] Hume, David, (1748) 1984: Del conocimiento,  Sarpe, Madrid.

 

[1] Stuart Mill, John (1859) 1962: On liberty, Collins, UK.

 

[1] Hegel, George Friedrich, (1807) 1998: Fenomenologia do espírito, Vozes, Petrópolis.

 

[1] Feurebach, Ludwig, (1841) 1994: A essência do cristianismo, Gulbenkian, Lisboa.

 

[1] Marx, Karl, (1857-8) (1953) 1973: Grundrisse ou Foundations of the critique of political economy, Penguin, U.K.

 

[1] Durkheim, Émile, 1912: Les strucutures élémentaires de la vie religieuse, Felix Alcan, Paris.

 

[1] Mauss, Marcel, 1923- 1924: « Essai sur le don. Forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques », in L’Année Sociologique, Nouvelle Série, Paris, Félix Alcan, Vol. I

 

[1] Weber, Marx, (1904) 1976: The protestant ethics and the spirit of capitalism, counterpoint, Londres

 

[1] Smith, Adam (1776) 1874: An inquiry into the reasons and causes of the wealth of nations, Routledge, Londres.

 

[1] Durkheim, Émile, (1893) 1977: A divisão social do trabalho, dois volumes, Presença, Lisboa

 

(Continua)

 

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