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25 – BLOGOCONTOS – Esperar, sentada, por Manuela Pinho –

É um blogoconto narrado em 3115  caracteres – “Esperar, sentada”, de Manuela Pinho. Vamos ler:

  

Nem sei se deva estar aqui. Não percebo o que elas estão a perguntar. Digo o quê?

Ainda por cima está frio e tenho frieiras nos pés.  Não devia ter trazido estas botas.

Também, não sei porque é que se tem de vir tão cedo, se é para ficar este tempo todo à espera.

 

Gostava de um casaco igual àquele. Mas não havia de ser roxo. E também não havia de ganhar assim borbotos. Mas também, para que quero um casaco daqueles, nunca vou a lado nenhum. Mal empregado para vir para aqui. Se eu pudesse ter um casaco desses de certeza que também não me apanhavam aqui. Grandes vidas, vê-se logo.

 

Olha para aquelas unhas, não tens mãos de fazer nada. Queria ver-te a lavar roupa no tanque, queria ver-te a lavar louça. Aí que parti a unha. Unha de gelinho, ai, custaram vinte euros, não posso estragar a unha. Era  um pano na mão e um balde de água com lixívia ali a lavares tectos. Ai, não posso fico com as mãos secas.

 

Pois, coitadinho do marido já nem gosta das festas. Ai coitadinho. Queres festas?, eu também queria, mas agora acabou-se, nem festas nem lambadas, disso já eu estou farta.

Sacana de um raio, achas que é mole e carregas. Não gostas de mim, gorda? vai roer os ossos da amiga. Em cima de mim é que não voltas a por as mãos, seu filho da mãe. Já levei tudo o que tinha a levar, e se voltas aqui tão depressa, nem sabes o que eu faço.  E se tocas no miúdo, ai sou eu que trato de ti. Não há-de sobrar nada teu. Ai de ti se apareces aqui outra vez. Já avisei o meu irmão e e ele e o marido da Bela vêm cá e dão cabo de ti.

 

Agora eu é que me lixe com a casa.

Estou para ver como é que vai ser este mês, não há, não se gasta. Já tirei tudo da conta, vê lá se agora consegues ir lá buscar dinheiro para gastares com a outra. A mim nunca me deste nada, a ela é perfumes e soutiens.

 

E isto está a demorar-se. Diz o quê na senha, noventa e três? Faltam onze. Carago das mulheres. Sempre com isto e com aquilo, e não despacham ninguém! Aquela já ali está há dez minutos. Mais, quais dez minutos?Então aquele bebé já mamou e tudo, e começou depois.

 

E eu a aqui à espera, e a descontarem-me na fábrica! E daqui a um bocado é a carreira das dez e quarenta e se eu não me despachar já só tenho outra ao meio dia e um quarto, já não chego antes da uma, e depois já me vai descontar mais uma hora, vaca de merda!

Já tinha avisado que vinha aqui por conta das horas, mas não deixaste. Vais ver se esta semana faço algum minuto, até te lixas!

 

E depois logo ainda tenho de ir buscar as botas do garoto que estão a arranjar, nunca mais chego a casa. Se o coiso não me despachar o carro da oficina esta semana, não sei como vai ser. Nem sei como é que vou pagar aquilo. Se for mais que duzentos euros, vai ter de ser aos bocados, que ele já sabe bem como é que as coisas estão e ainda tenho de ir à inspecção e pagar o seguro no mês que vêm. Se não quiser, temos pena, fique lá com o carro até eu ter dinheiro para o ir buscar.

 

Olha, outra! Outro filho, “cum caraças”! Três, e depois dizem que não há dinheiro. Bom dia, também se cá gasta! Também, não sei porque é que vêm com os garotos para aqui. É só para mostrar os ricos filhinhos, tão bonitinhos que são, ai os meus filhinhos. Camisola não sei quê, sapatilhas não sei quantos. Vê lá se vais à feira?

 

Oitenta e sete? mas o que é que estas velhas fazem aqui? Olha, agora foi-se embora, vais beber um cafézinho, comer o bolinho? E eu aqui!

 

 Já fizeste para merecer o bolo, hoje?

 

É chegar, sentar, por os pés na escalfeta e depois quem quiser que espere, não é?

Mas porque é que eles põem estas múmias a atender? E se há seis mesas, porque é que só estão três? Duas! agora sei lá quando é que a velha volta.

 

Eu acho que trouxe os papeis todos, só falta preencher o coiso. O pior é se não é igual aqui e no outro lado. Mas deve ser igual, então é para a mesma coisa!

Com a sorte que eu tenho…

 

 

 

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