“Mostarda” o nosso 40º blogoconto. Tem os 1094 caracteres que vamos ler:
Sei que daqui a pouco é Inverno. Paro na mostarda – ao lado azeitonas, conservas, ovas, chocos, embalagens apetitosas. Está a meu lado na descoberta dos temperos. Procura pela mostarda em grão que a receita determinou como regra do tempero. Tento explicar que se não houver em grão, pode tentar em pó. Responde-me que não saberá dosear.
Já vamos no terceiro supermercado e a mostarda só nos aparece em pó. Acaba por aceitar. Será em pó a mostarda.
Aos poucos percebe que pode substituir e acrescentar outros temperos que a receita não aconselha. Seu olhar mostra bem estar.
Olha-me e diz carinhosamente, quem sabe se em vez do comprimido para dormir, um bom charro e relaxa. Passo o braço na sua cintura, responde-me com seu braço em torno do meu ombro. Sorrimos.
Tímidos, não ficaremos por muito tempo abraçados.
Da minha janela vejo o mar, meses a fio estive voltada de costas para ele. Ia para meu quarto fechava as persianas. Meu horizonte em quatro paredes.
Falamos da vida, falamos dos livros. No olhar um sorriso. Pergunta-me se sei da outra louca, daquela mulher que perdeu o juízo de tanto sofrer. Por vezes a dor é assim, enlouquece.
Talvez um dia encontre mostarda em grão. Quem sabe se não é esse o tempero que falta.
Amanhã é domingo, ainda é Verão. Não tarda o Inverno. Meu amor ainda mora noutro lugar.
