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A POESIA UNIVERSITÁRIA E A GUERRA COLONIAL (3) – por Manuel G. Simões

(Continuação)

 

 Mas o texto talvez de maior impacto, de entre os que oferece a Antologia, é o conhecidíssimo poema intitulado “Barcas Novas”, de Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), aluna da Faculdade de Letras de Lisboa, no qual se recupera a funcionalidade do signo que é o mar como modelo de representação literária. No caso vertente o modelo intertextual é o da famosa cantiga do jogral Joam Zorro, “En Lixboa, sobre lo mar” (B 1151 e 1152/V 754), que poderia ser uma cantiga de amigo paralelística (em cujo género andou incluída) mas que é proriamente uma cantiga de amor, como é legível a partir do refrão “Ai, mia senhor velida!”. Sobre esta cantiga constrói Fiama Pais Brandão o seu poema, mais tarde incluído a abrir o livro da autora precisamente intitulado Barcas Novas (Lisboa, Ed. Ulisseia, 1967), com a particularidade de conduzir intencionalmente o leitor para a cantiga do jogral, que operou na corte de Afonso III ou na de D. Dinis, ao ponto de a transcrever literalmente como epígrafe do novo texto:

                                                 BARCAS NOVAS

                                               En Lixboa, sobre lo mar

                                               Barcas novas mandei
                                               lavrar.

                                                  Ai, mia senhor velida!

 

                                               En Lixboa, sobre lo
                                               ler

                                               Barcas novas mandei
                                               fazer.

                                                  Ai, mia senhor velida!

 

                                               Barcas novas mandei
                                               lavrar

                                               E no mar as mandei
                                              deitar.

                                                  Ai, mia senhor velida!

 

                                               Barcas novas mandei
                                               fazer,

                                               E no mar as mandei
                                               meter.

                                                  Ai, mia senhor velida!

 

                                                           JOÃO ZORRO

 

 

 

 

 

 

 

            Lisboa tem suas barcas

            agora lavradas de armas

 

            Lisboa tem barcas novas

            agora lavradas de homens

 

            Barcas novas levam guerra

            as armas não lavram terra

 

            São de guerra as barcas novas

            no mar deitadas com homens

 

            Barcas novas são mandadas

            sobre o mar com suas armas

 

            Não lavram terra com elas

            os homens que levam guerra

 

            Nelas mandaram meter

            os homens com sua guerra

 

            Ao mar mandaram as barcas

            novas lavradas de armas

 

            Em Lisboa sobre o mar

            armas novas são mandadas (pp.71-72).

 

 A composição de Fiama actualiza e ressemantiza a cantiga de Joam Zorro, da qual extrai o título e também a matéria linguística nuclear: “barcas novas”, “lavrar”, “Lisboa” e “mar”. Isto quer dizer que a forma modela um material (tecido poético) já anteriormente modelado, mas a poetisa, inserida noutro tempo histórico, introduz elementos novos que conferem ao texto uma rede de conotações particularmente significativas: os nomes “armas” e “guerra” e, elemento importante, o advérbio “agora”. Estes novos vocábulos, incluídos logo no primeiro dístico(“agora lavradas de armas”) e no terceiro (“Barcas novas levam guerra”), excluem a hipótese de simples glosa da cantiga de Zorro, até porque determinam um tipo de paralelismo semântico de empenho intervencionista e simultaneamente de recuperação histórica: as “armas”, que “não lavram terra”, são “agora” portadoras da guerra feita pelos homens, constituindo o elemento “agora” um indicador determinante no processo de ressemantização aqui operada. Além disso, é legível a constrição a que são submetidos os homens, aspecto que se patenteia claramente no sétimo dístico: “Nelas mandaram meter / os homens com sua guerra”. O poema de Fiama Hasse Pais Brandão, musicado e cantado (facto não pouco significativo porque de novo põe em ligação a poesia e a música) por Adriano Correia de Oliveira (1942-1982), também ele estudante universitário, aluno da Faculdade de Direito de Coimbra, apoia-se ainda num paralelismo aberto (o primeiro dístico constitui o núcleo da expansão textual), já evidente na cantiga de Joam Zorro, usando simetrias, reiterações verbais típicas da construção paralelística, além de retomar integralmente o verso “En Lixboa, sobre lo mar” do cantor medieval. Fiama recupera aqui um antiquíssimo tópico da lírica galego-portuguesa, o da partida dos soldados com o motivo da incerteza do regresso, actualizando-o, porém, de modo a contemplar o tema da guerra.

 

Não deixa, contudo, de ser curioso observar o interesse da “geração” que de algum modo se viu envolvida nos mecanismos perversos da guerra colonial por um modelo construído, já na origem, de forma rígida e estereotipada. Creio que só as coordenadas históricas podem ter justificado o despertar deste interesse, que terá começado justamente em Coimbra no dealbar dos anos 60, quando José Afonso (1929-1987), estudante da Faculdade de Letras, compunha e cantava canções a que chamou baladas e trovas, tentando recuperar e recriar fórmulas e formas da música e da poesia que não raro se converteram em testemunho de uma história desamada pesando como um estigma.

 

(Continua)

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