POESIA AO AMANHECER (26) – por Manuel Simões

Fiama Hasse Pais Brandão – Portugal

( 1938 – 2007 )

O CONSUMO DE CEREAL

À beira

do rio a imagem é fiel, ascende

entre as matérias

múltiplas das casas, ou entre o odor

que exalam

os seus costumes, eiras: esses círculos

onde os seres vivos, que no rio divergem reflectidos, na vila

conjugam o cereal.

É de metal o fluido da água tal

a dureza, a curta imagem de uma vila consumindo

uma colheita a tempo: o debulhar,

o grão medido, as palhas que na aragem do fim

são outras aves vindo.

(de “F de Fiama”)

Animadora do movimento “Poesia 61”, foi coorganizadora da importante “Antologia de Poesia Universitária” (1964), onde publicou o poema “Barcas novas”, o qual, juntamente com o “Poema para a padeira que estava a fazer pão enquanto se travava a batalha de Aljubarrota”, a tornaria imediatamente famosa. O seu itinerário poético, de grande densidade, evoluiu para formas de notável depuração e complexidade, desde “Em cada pedra um voo imóvel” (1957), passando por “Morfismos” (1961), “Melómana” (1978), “Área branca” (1979), “F de Fiama” (1985) ou “Cantos do canto” (1995).

 

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