“Ocaso”, um blogoconto com 1239 caracteres, é o contributo de Baltazar para o nosso concurso:
Todos os dias, Aurora procurava encontrar a razão que a impedia de voltar a escrever.
A mesa encostada à parede? A janela longe do olhar? Os dias que eram cada vez mais estreitos?
De madrugada acordava suada, com falta de ar. O médico avisava:
– A senhora tem uma doença respiratória obstrutiva. Com apneia do sono, tem de dormir com o auxílio de uma máquina…
– Já durmo …
– É um CPAP ou um BiPAP?
– Não faço a menor ideia. Sei que deita tanto ar que me sufoca.
Antes, o medo de morrer era o incentivo para colocar a máscara, ligar o aparelho e ouvir a sua respiração.
Quando a morte deixou de ser assunto interno, passou a rezar para que o passado regressasse ao tempo em que respirar era fácil.
Quase um ano sem ter nada para dizer, senão tentar manter-se inteira entre paredes opostas.
Aurora tinha descoberto o infinito, onde as paralelas encontram-se, estreitando o intervalo da existência.
Escreveria todos os dias, se não ocupasse o tempo a refletir sobre quantas pessoas teriam sapatos. Quantos descalços no mundo?
Passava os dias à janela para descobrir quantas pessoas caminhavam com sapatos azuis. Em cada meia-hora, quantos foram aqueles que não passaram pelo seu olhar?
– Traga a máquina que a enfermeira Carla acerta a pressão…
Distraída, deixou que a cabeça sugerisse o sim. Deixou cair a carteira. Quatro sapatos brancos ocuparam a sua atenção.
– Dona Aurora, só tenho 15 minutos por consulta…
Neste lugar onde a poeira faz cama e rouba o ar, Aurora morreu devagar.
