33 – BLOGOCONTOS – Ocaso – por Baltazar

 

“Ocaso”, um blogoconto com 1239 caracteres, é o contributo de Baltazar para o nosso concurso:

 

Todos os dias, Aurora procurava encontrar a razão que a impedia de voltar a escrever.

 

A mesa encostada à parede? A janela longe do olhar? Os dias que eram cada vez mais estreitos?

 

De madrugada acordava suada, com falta de ar. O médico avisava:

 

–          A senhora tem uma doença respiratória obstrutiva. Com apneia do sono, tem de dormir com o auxílio de uma máquina…

–          Já durmo …

–          É um CPAP ou um BiPAP?

–          Não faço a menor ideia. Sei que deita tanto ar que me sufoca.

 

Antes, o medo de morrer era o incentivo para colocar a máscara, ligar o aparelho e ouvir a sua respiração.

 

Quando a morte deixou de ser assunto interno, passou a rezar para que o passado regressasse ao tempo em que respirar era fácil.

 

Quase um ano sem ter nada para dizer, senão tentar manter-se inteira entre paredes opostas.

 

Aurora tinha descoberto o infinito, onde as paralelas encontram-se, estreitando o intervalo da existência.

 

Escreveria todos os dias, se não ocupasse o tempo a refletir sobre quantas pessoas teriam sapatos. Quantos descalços no mundo?

 

Passava os dias à janela para descobrir quantas pessoas caminhavam com sapatos azuis. Em cada meia-hora, quantos foram aqueles que não passaram pelo seu olhar?

 

–          Traga a máquina que a enfermeira Carla acerta a pressão…

 

Distraída, deixou que a cabeça sugerisse o sim. Deixou cair a carteira. Quatro sapatos brancos ocuparam a sua atenção.

 

–          Dona Aurora, só tenho 15 minutos por consulta…

 

Neste lugar onde a poeira faz cama e rouba o ar, Aurora morreu devagar.

 

 

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