(Continuação)
2. Primeira lição: pai, ouve.
Saber ouvir. Saber entender as palavras das histórias referidas no calor do lar ou mesmo no calor do debate que essa filharada tem com os seus pares. Há as crianças que adoptam os pais como aliados nas suas dificuldades para se inserirem fora do lar. Sentem que esses adultos vão punir o parceiro que debate com ela, que vão esgrimir as luvas de boxe para esmagar os adultos do rival, vão salvar a sua vida de entre as alternativas cruzadas nas vias da vida, alternativas desencontradas a desnortear os seus sentimentos, o seu raciocínio e a sua razão. Não é mentira quando afirmam: o meu pai bate no teu e ganha, a minha mãe sabe cozinhar melhor do que a tua, entre outras, que vão dizendo ao largo da vida. Assim, como esses ciúmes que os descendentes têm se os pais mostram afectividade entre eles sem incluir o seu pequeno corpo entre os seus corpos com carícias, tal como os sentem nas actividades partilhadas, dentro de casa, entre os pais.
A criança dá-nos uma primeira lição: já não somos dois a viver sob o mesmo tecto, somos três, quatro, cinco ou mais. Cada individualidade, entrelaçada na individualidade do outro. Nunca uma por cima da outra para mostrar que é mais querida ou mais preferida. A lição é simples: somos um conjunto de pessoas a experimentar a vida de forma diferente dentro de conceitos compartilhados e afectos unificados, mas entendidos conforme a acumulação da experiência que explica ao mais novo o que esses conceitos e sentimentos querem dizer ou significar.
Pais alertas ao facto da heterogeneidade de gerações em convívio dentro dos laços de amor ou de emotividade que uma família modelar, parece ter. Pais alertas, a modificar a sua linguagem e a sua forma de dizer para ter um lar e não uma sala de debate, uma sala de interrogações, uma sala que vitima os descendentes, os filhos. Sem espreitar entre os arquivos que a infância entesoura com prazer, tesouro acumulado para definir a sua trajectória na vida. Tarefa difícil que se prolonga nos anos, até a criança começar a andar só pela estrada da vida, apoiada nas emoções guardadas dentro de si pelo saber falar dos adultos entre eles e com os mais novos. Palavras e frases que adultos pais sabem e aprendem, visão do mundo a adquirir pela observação da vida ao seu cuidado, a dos filhos, que, cedo demais, entram no convívio com o social.
Lição que eu denominaria de amor, entendimento e humildade para aceitar a experiência dos mais novos, incutindo-a dentro de si. O adulto guarda a sua criança nesses conceitos e desenvolve-os a par e passo enquanto a criança é socializada por outros.
(Continua)
