Meu caro editor. Diz-nos que o “estado do país não podia ser definido melhor do que como o fez Passos Coelho, ao sugerir aos professores sem colocação que emigrem.” Concordo, somos um país que tem e mantemos como primeiro Ministro alguém que, no limite, quer governar sem ter governados.
Meu caro editor: não é apenas Passos Coelho quem nos oferece essa saída. Em plena época de Natal é também pela cabeça de Rangel que vêm a mesma ideia, é também pela aberração de um secretário de Estado para a Juventude de nome chamado Alexandre Miguel Mestre que nos vêm a mesma ideia mas agora dirigida para outro espectro da população, a juventude.
Meu caro editor, é tudo coerente neste governo. Professores na rua, fora do país, então para que se quer alunos? Podem seguir o mesmo caminho, podem-se ir embora. São, de imediato, menos despesas para o erário público, é pois mais dinheiro para poder pagar em juros ou em gigantescas comissões para a Troika. Alguém se interrogou quando ganham cada um dos seus funcionários, quanto nos custa, melhor dizendo, cada inspecção aos nossos sacrifícios que esses senhores nos fazem?
Meu caro editor, publicou um post meu recentemente onde se mostrava o paralelismo entre as medidas de Passos Coelho e as da República de Weimar anunciadoras de um Hitler anunciadoras de um ditador. Mas vou mais longe, todas estas medidas não anunciam um ditador, estas são medidas ou propostas de um ditador, soft, mas só por enquanto! Lembram-se no dia da greve geral de de um discurso dirigido ao país por Relvas? Só lhes faltou a arte de uma Leni Riefenstahl ou a textura de um António Ferro para que pudesse já ser uma peça deste tipo de sistema, mas pode ser visto como um ensaio.
Meu caro editor, penso que se lembra de Chiapas e do sub-comandante Marcos. Quando a revolta aí estalou deu-se um debate entre Carlos Fuentes, um escritor moderado, amigo de Fox, então Presidente da República do México, creio, e uma alta personalidade política do PRI. A opinião deste político contra a do escritor era de que o rendimento per capita era baixo apenas porque havia muitos pobres, não era pelas políticas seguidas. Se estes desaparecessem, o rendimento subia. A conclusão é pois imediata. Exterminem-se esses brutos.
Meu caro editor. É dramática a situação da juventude, é dramática a situação dos mais velhos, é dramática a situação dos que estão pelo meio, a população em idade activa que emprego não tem nem vai ter, a deixarmos seguir o país por este caminho. E face a tudo isto que nos diz o Governo? Rua, saiam do país deixem-nos o terreno livre para as reformas que estamos a fazer, e destas, meu caro editor, não há até hoje uma só medida que se diga está a servir o país, a menos que servi-lo, represente entregá-lo disponível e em saldo aos estrangeiros, liberto de estorvos, e os estorvos somos todos nós, afinal!
Meu caro editor, não estamos em Chiapas mas para lá caminhamos pela mão sabida, segura, de um Primeiro-Ministro, licenciado de tempos livres numa Universidade privada qualquer e que, sem risco, pela mão de Ângelo Correia ao poder também chegou. Se eleito foi, destituído pode ser. Está na nossa mão que assim seja. E o verdadeiro risco é não obrigarmos a que isto não ser feito.
Meu caro editor, face ao espaço de ruínas em que estão a transformar este país, creio que se exigiria que o Presidente da República se pronunciasse, mas se ele nunca se pronunciou com exigências de justiça rápida e claramente publicitada face aos que assaltaram o país e os nossos bolsos também, por exemplo através do BPN, como esperar que de livre vontade este tome posição pública relativamente ao descalabro em que se está a transformar este país? Exigir a sua tomada de posição face a tudo isto, parece-nos ser uma questão de princípio e de princípios é que nunca se pode abdicar. Deles abdicar é ainda mais arriscado que os riscos a que os mercados financeiros e os seus fieis servidores nos têm estado a fazer correr.
Meu caro editor, mais textos destes, precisam-se.
