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UTOPIA E DISTOPIA NO UNIVERSO POÉTICO DO NEO-REALISMO (NOTÍCIAS DO BLOQUEIO, DE EGITO GONÇALVES E A INVENÇÃO DO AMOR, DE DANIEL FILIPE) – 4 – por Carlos Loures

Dois casos de poesia distópica – Notícias do Bloqueio, de Egito Gonçalves e A Invenção do Amor, de Daniel Filipe

 

Como comecei por dizer, não faltará quem conteste, quer a Egito Gonçalves, quer a Daniel Filipe a classificação de neo-realistas. Quem como Laureano Silveira (1957-2008) procure desvincular Egito Gonçalves de um movimento a que esteve ligado pela temática da sua poesia mais significativa – e já vimos que a classificação não é aplicável se a abordagem se faz pela forma:

 

(…) qualquer condicionalismo pode reduzir o âmbito da temporalidade de uma mensagem poética e empobrecer um poema na sua inércia e na sua dinâmica significantes(…) É, de resto, este pressuposto que nos autoriza a, peremptoriamente, negar a Egito Gonçalves o epíteto de neo-realista e distinguir o seu modo de estar na poesia do nosso tempo. (1)

 

No pólo oposto, recomendo a leitura ou a releitura do excelente estudo que Fernando J. B. Martinho dedicou a Notícias do Bloqueio, no qual são apresentadas de forma consistente todas as razões por que deve Egito Gonçalves, pelo menos no período que referi – anos 50/60 – ser considerado um poeta neo-realista:

 

O poema, composto em 1952 e publicado no último fascículo da revista Árvore em 1953, tem sido lido, e, realce-se, correctamente, como um poema de resistência, e os que na época e em anos subsequentes o leram não tiveram qualquer dificuldade em nele ver uma alegoria do combate desigual dos que, no país, resistiam, sem desfalecimentos, ao bloqueio salazarista. O poema tornou-se, aliás, uma espécie de bandeira dessa resistência (…). (2)

 

O caso de Daniel Filipe parece-me mais pacífico, pois a maioria das biografias que dele consultei dão-no como neo-realista, havendo uma que circula na Internet e que diz que o poeta recebeu o labéu ou o estigma de ser neo-realista. Portanto, assentemos num princípio: não sei se Egito Gonçalves, que conheci pessoalmente e com o qual tive ocasião de colaborar em numerosas iniciativas (embora nos últimos anos da sua vida só tenha tido encontros esporádicos e troca de correspondência sobre temas específicos), manteve sempre até ao fim a mesma linha de pensamento. Quando escreveu o poema Notícias do Bloqueio podia ser considerado um poeta neo-realista. O mesmo digo de Daniel Filipe e de A Invenção do Amor. Lembro o Manifesto Surrealista de André Breton e a sua abrangência na classificação dos surrealistas. Com Egito Gonçalves e com Daniel Filipe não me parece ser necessário usar de tal critério.

 

Notícias do Bloqueio e A Invenção do Amor são claras alusões à sociedade portuguesa onde tudo, até o amor, é vigiado. Fala-se, pois. de uma distopia que já existe e que poderá agravar-se. Mas a esperança é um sol que nunca deixa de iluminar estes poemas. Segundo uma dissertação de Daniela Vieira Amaral sobre utopia e distopia na literatura de Mia Couto, pós-independência, existe uma tensão constante entre os temas utópicos e distópicos na obra do autor moçambicano após a independência. (3) É o que acontece nos dois poemas aqui estudados – uma tensão permanente entre uma situação de repressão constante e absoluta e a esperança na fuga ou no advento de uma nova realidade.

 

Intertextualidade dos dois poemas

 

Notícias do Bloqueio e A Invenção do Amor, revelam a existência de uma matriz comum – a da poesia da resistência ao regime salazarista. Egito estrutura o seu poema a partir de um narrador que fala para uma mulher que pode passar as barreiras do assédio «Aproveito a tua neutralidade,/o teu rosto oval, a tua beleza clara,/para enviar notícias do bloqueio/ aos que no continente esperam ansiosos». E descreve-lhe depois como se vive na cidade sitiada: «Dirás como trabalhamos em silêncio,/como comemos silêncio, bebemos/ silêncio, nadamos e morremos/ feridos de silêncio duro e violento». E continua: «Vai pois e noticia como um archote/aos que encontrares de fora das muralhas/ o mundo em que nos vemos, poesia/ massacrada e medos à ilharga». Como sabemos, o título do poema daria lugar a uma série de nove fascículos (Porto, 1957-1961) que adoptando o seu nome – Notícias do Bloqueio – e que, além de Egito Gonçalves, reuniu Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro. Poetas que de uma forma geral são ou, pelo menos eram à época da publicação da revista, conotados com o neo-realismo.

 

 

 

[1] Laureano Silveira, “A Poética Existencial de Egito Gonçalves”, Lisboa, Revista ICALP, vol. 20 e 21, Julho – Outubro de 1990, 97-102.

 

[2] Fernando J.B. Martinho, “A que leva as notícias, num poema de Egito Gonçalves”, Vila Franca de Xira, Nova Síntese, nº2/3, 2007-2008,
pp.223-227.

 

[3] Daniela Vieira Amaral,  – Utopia e distopia em Mia Couto, dissertação de doutoramento – Universidade Federal de Pelotas, Brasil.

 

 

(Continua)

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