3. « Made in Italy » à chinesa
Dominique Dunglas,
Novembro de 2010
Têxteis. Como os chineses implantaram uma fábrica-cidade na Toscana.
O quiosque só vende o jornal Wan Li (escrito em Cantonês), nos restaurantes, o tagliatelle deu lugar ao macarrão. Todos os pregões ignoram a língua de Dante, para utilizarem os ideogramas e só asiáticos é que estão a viver na rua Pistoiese, o coração da Chinatown de Prato, no início desta tarde e no princípio do Outono. ” Seja bem-vindo à China!” ironiza Mateo Lee, chegado de Wenzhou, uma cidade no sudeste da China, em 1990. ” A Chinatown de Prato não se assemelha à das outras capitais na Europa, ao mesmo tempo mistas e folclóricas, diz o nosso guia”. Aqui, sente-se como se esteja num pedaço da China profunda, da China rural. Transposta para a Itália.
Se a comunidade chinesa na cidade de Prato é a terceira na Europa depois de Londres e Paris, com 45 000 pessoas, a segunda cidade toscana tem apenas 180 000 habitantes. Um em cada quatro habitantes é chinês como são chineses os 40 por cento de bebés que nascem na maternidade de Prato.
A implantação dos chineses em Prato, 15 km a noroeste de Florença, data dos anos 90. Os primeiros a chegar vieram de Wenzhou para trabalhar no sector têxtil, e era na época uma das regiões mais florescentes da Península. Mas rapidamente alguns deles começaram a trabalhar por conta própria para estender a fileira de fabricação de vestuário pois os industriais locais apenas produziam tecidos. Fast fashion ( a moda rápida) foi assim que nasceu. Nós somos os mais rápidos do mundo, observa Xu Qiu Lin – Giulini para os seus amigos italianos -, cuja empresa Giupel realiza oficialmente 15 milhões de euros de volume de negócios. Podemos responder a qualquer encomenda no prazo de três dias enquanto que é necessário três meses para a fabricação na China para além dos transportes para a Europa. E nós temos a etiqueta made in Italy , que é um activo em todos os mercados. “Somos os mais rápidos, mas também estamos entre os mais baratos”. No entanto, a última onda de imigração que tem estado agora a chegar originária do Norte da China, é muito pouco qualificada e a fast fashion Chinesa feita na Itália é muitas vezes de menos boa qualidade do que a produção feita na China. Paradoxo da globalização.
Acontece que, em vinte anos, a cidade de Prato destronou Paris na confecção de roupa de baixa qualidade, principalmente destinada aos mercados de rua: 3 400 empresas de confecção, 40 000 trabalhadores (entre regulares e irregulares), 360 milhões de peçam produzidas por ano, um volume de negócios estimado em EUR 2 mil milhões de euros – metade no mercado clandestino – e uma clientela que vem de toda a Europa, mas também de África e do Médio Oriente ou da América do Sul.
“Nova escravidão”. Assim, depois da meia-noite, a área industrial de 175 hectares do Macrolotto está ainda iluminada e borbulha de actividade . Os grandes expositores saem dos hangares para expor as mercadorias. Frágeis silhuetas, centenas de chineses percorrem de bicicleta de cigarro enrolado na boca as incontáveis ruas em idas e vindas. Em todos os lugares, os furgões de matriculas as mais variadas carregam e descarregam. O camião snack-bar ambulante distribui tigelas de arroz cantonês. E os grandes Mercedes, Audi ou Porsche Cayenne indicam que os laoban (os patrões ) não estão longe.
Sinal desta vitalidade económica, em 2009, os chineses de Prato enviaram para o seu próprio país 464 milhões de euros graças aos balcões de transferência de dinheiro instalados na cidade.
Um tesouro baseado no trabalho de imigrantes ilegais, que são entre 30.000 e 35.000 de acordo com as autoridades. Cada descida dos investigadores às fábricas dá origem ao mesmo espectáculo: trabalhadores a dormir, outros a cozinhar e outros a trabalhar dezasseis horas por dia, sete dias por semana em armazéns sórdidos e insalubres. Evocando os patrões, os laoban que confiscam os passaportes dos novos trabalhadores para se cobrarem do reembolso da sua viagem (de 20 000 a 30 000 euros), o prefeito de Prato, Roberto Cenni, falou de uma “nova escravatura”. Que escravatura? responde Giulini. Na China, eles ganham 80 euros por mês, aqui ganham 800. Em dois anos, eles podem comprar uma casa. Prato é uma miragem para eles. “Na verdade, a força de trabalho nunca falta em Prato. Em caso de pressão da procura, uma chamada telefónica trabalhadores vêm rapidamente de Roma ou de Milão.
Uma situação que não é susceptível de se mudar, porque as autoridades chinesas se recusam a repatriar os imigrantes ilegais, cuja identidade não é estabelecida. Assim, em 2009, sobre 985 ilegais que foram multados pela polícia, apenas 7 foram reenviados para as fronteiras.
A ilegalidade não se limita ao trabalho clandestino. Além das contribuições sociais e do IVA parecem ser facultativos, uma grande parte dos tecidos vem da China a 58 cêntimos por metro quando o que é fabricado em Prato custa … 5 euros. “Mais ainda, para além dos sistemas de triangulação com empresas em falência ou do contrabando puro e simples, os chineses têm um estratagema que evita os controlos sobre o tecido: estes facturam em quilogramas, quando os agentes da alfandega raciocinam em metros” explica Silvia Pieraccini, autor do mais completo levantamento feito sobre os chineses em Prato. Os pobres empregados das alfândegas perdem o seu latim! Eles não estão sozinhos. Quando a administração quer enviar um aviso a uma empresa sobre uma violação da lei é a mesma coisa que chocar contra o muro dos homónimos. No registo comercial, existem actualmente 10 empresas intituladas Confecções António, 12 com a designação de Confecções Francesca e 15 com Confecções Giulia. Para complicar as coisas, a maioria dessas empresas desaparece ao fim de alguns meses para reaparecer com outro nome…
O sistema é economicamente genial, global – os chineses entre eles estabeleceram todos os serviços de que necessitam: agências de viagens, transporte de empresas, táxis, agências funerárias, restauração, , etc. – e são impenetráveis.
Balão de oxigénio. Depois de sessenta e cinco anos de hegemonia da esquerda, Roberto Cenni ganhou as eleições para a Câmara Municipal de Prato fazendo campanha contra a ilegalidade da comunidade chinesa e com o apoio da Liga da Norte. «São as pessoas mais modestas que sofrem com a presença dos chineses. Existem até cerca de 40% dos filhos de imigrantes nas escolas públicas, e o serviço de urgência do hospital está saturado por cauda deles. O preço dos imóveis na Chinatown de Prato tem estado a cair. Os meus amigos que aí vivem já não conseguem vender as suas casas. A ilegalidade difusa contamina todo o tecido económico da cidade, e temos medo da instalação da máfia chinesa.»
Como a confirmar as preocupações do prefeito sobre a criminalidade, três chineses foram mortos – dois com catanas e o terceiro com um tiro na cabeça – na rua e em pleno dia durante a nossa estadia sem que ninguém se apercebesse de nada . Como se dirá Omerta em chinês?
Mas a cidade de Prato não pode viver sem a comunidade chinesa. Enquanto eles não são em caso nenhum responsáveis pela crise do sector tradicional do tecido, os chineses trouxeram um balão de oxigénio para a cidade: 120 milhões de euros por ano para o arrendamento de armazéns, 40 milhões para apartamentos, 35 milhões para os concessionários de automóveis, etc. E muitas empresas chinesas agora empregam italianos para a criação de colecções, para a venda ou na administração.”Eu teria preferido que nunca se tivessem instalado em Prato, mas, se eles se vão agora embora, seria um desastre,” reconhece Carlo Longo, o Presidente da Câmara de Comércio. Os meios de negócios não estão sobre esta matéria enganados e eles abriram as portas do muito selecto clube de golf local a uma dúzia de patrões do Império do Meio.
“Sair da ilegalidade”. A política de controlos de murros na mesa do novo município, com uma utilização das forças de segurança e de helicópteros, tem mostrado os seus limites e agravou a incompreensão entre as duas comunidades. No entanto, tal como os italianos, Matteo Lee compreende a necessidade de sair da ilegalidade. “Nós precisamos de um pouco mais de tempo para nos adaptarmos. Mas precisamos de regras simples, claras e que sejam aplicados.” “Os italianos prendem os imigrantes ilegais e, em seguida, libertam-nos, o mesmo que nada fazer!” lembra o Professor Junyi Bai, que não esconde o seu desprezo relativamente à esquizofrenia das nossas democracias moles. Um impasse. “Não, diz Giulini, que foi o primeiro chinês a inscrever-se na Confindustria, a Confederação do Patronato Transalpino. Ainda se produz a 20% mais caro do que na China, mas em cinco anos vai ser melhor do que o chinês na China. Em seguida, vamos aumentar as nossas empresas, melhorar a qualidade, trabalhar com tecidos de Prato e sair completamente da ilegalidade”.
O mesmo projecto do prefeito, que, além das declarações belicosas, sonha fundir o sector tradicional do tecido e o fast fashion chinês numa central europeia da confecção. A integração cultural e social será, ela, uma questão da segunda geração.
Nascidos na península, os filhos de Giulini venderiam pai e mãe pela equipa de futebol Fiorentina, a equipa de Florença…
Custos para a produção de um casaco para homem -3 botões para homem:
– 30 Cêntimos de euro para o corte
– 2,30 euros para costura
-45 cêntimos para os botões
-80 cêntimos para passar a ferro e uma margem de 50 centavos param o subcontratante. Um total de 4,35 euros sem o tecido.
Um total de 4,35 euros sem o tecido…
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