Desindustrialização, Globalização, 3ª Série – 3ª Parte – A China na Europa, da cidade de Prato na Itália à SAAB na Suécia – II. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

 

2. Empregos Italianos, Chineses Ilegais


Um afluxo de imigrantes chineses está a transformar a economia italiana e a gerar um recuo cultural. Será isto o futuro da Europa?


Nina Burleigh (Bloomberg)


Numa manhã de bom sol, cheia de luz, mas sufocante depois, alguns dias mais tarde, em 15 de Agosto e em férias durante uma semana, quando a maioria dos italianos indiferentes foram para a beira mar, um esquadrão de quatro mulheres policias parou numa rua residencial arborizada na cidade toscana de Prato. Estes agentes estacionaram em frente a um prédio de 10 andares de cimento, subiram uma rampa, e abriram uma porta que dá para o parque-garagens de estacionamento do edifício. Uma vez os seus olhos ajustados para o interior escuro, avistaram cerca de 50 adultos e crianças, que, o que ficou imediatamente claro, eram todos imigrantes chineses que vivem num labirinto de cubículos feitos com paredes de gesso e sem arejamento. O grupo dividiu um único banheiro e uma cozinha improvisada com um separador de plástico com quatro pés acima do chão. Havia um frigorífico repleto de pés de frango e peixe seco e tinham tiras de carne seca pendurada em cabides de roupas.

 

Ao longo dos últimos 15 anos, de acordo com as autoridades locais, vieram 40 mil imigrantes chineses para a cidade toscana de Prato, que tem uma população de 188.000. A cidade tem sido famosa desde a Idade Média pela produção de lãs finas e de outros produtos têxteis, que os artesãos  produzem e que é considerado como o topo de gama em tecidos e confecções. Prato produz 27 por cento da produção da indústria italiana têxtil. Agora, porém, os chineses introduziram um método de produção mais recente, mais barato, e às vezes secretamente produzem bens para as marcas de luxo, de acordo com um documentário de TV italiana intitulado 2007, Escravos do luxo. A substituição por produção chinesa mais barata e mais rápida para a tradição italiana que é lenta, fino e cara, deu cabo do coração da indústria da moda italiana e, por extensão, na cultura económica da Itália como um todo.


Existem hoje 5.000 empresas de propriedade chinesa em Prato, 4.000 das quais estão no ramo de vestuário, de acordo com a jornalista Sílvia Pieraccini, especialista em finanças, que escreveu um livro sobre a migração chinesa para a Itália. A cidade abriga a maior percentagem de chineses na Europa, atingindo 25 por cento da população em Prato, em 2008, exactamente quando a economia global entrou numa espiral descendente. Desde então, as relações entre os nativos e os recém-chegados têm‑se degradado. Os italianos acusam os imigrantes de ocuparem os seus postos de trabalho e de prejudicarem a actividade económica; os chineses dizem que são vítimas de assédio, de fortes pressões  e de discriminação. Provavelmente não será por coincidência que Prato se tornou menos tolerante oficialmente com a sua população de imigrantes chineses ao mesmo tempo que a Itália estava a entrar numa forte recessão que penaliza fortemente o emprego e deixa 30 por cento dos seus jovens desempregados e levando a dívida nacional a crescer em espiral. Durante os últimos três anos, as autoridades montaram centenas de operações a  que chamam de “blitzes”, ou “controles”, sobre as fábricas de propriedade chinesa em Prato.


A repressão envolve a polícia local, acompanhada por cobradores nacionais de impostos e com as inspecções do trabalho, que chegam sem avisar e fecham as fábricas em função do não pagamento de impostos assim como da ilegalidade de residência em instalações fabris. Os helicópteros sobrevoavam a zona à caça de trabalhadores que fugiam para voltarem depois da rusga passada. Em 2008, a polícia de Prato capturou milhares de trabalhadores ilegais que a Polícia considerava serem chineses. O impacto real dessas medidas é, no entanto, duvidoso,. A embaixada chinesa ​​recusa-se a reconhecer esses indivíduos sem documentos como sendo cidadãos chineses, de tal modo que estes quase nunca podem ser deportados. Uma vez que os italianos não têm possibilidades para onde encarcerar onde quer que seja, simplesmente emitem citações.


A ironia do ânimo da comunidade de Prato face aos seus imigrantes chineses é que o povo chinês pode muito bem acabar por resgatar a Itália, e talvez até mesmo a Europa, desde o seu agravamento da crise económica. Em Setembro, a Itália tornou-se o primeiro país europeu a admitir poder voltar-se para a China para que esta a ajudasse no resgate financeiro; o ministro italiano das Finanças, Giulio Tremonti, reuniu-se com Lou Jiwei, o Presidente do fundo chinês soberano China Investment Corp (CIC) que dispõe de 400 mil milhões de dólares, num esforço para convencer os chineses a comprar mais títulos italianos e aliviar a Itália que tem uma dívida pública de 1.9 milhões de milhões de dólares, de acordo com o governo italiano. O primeiro ministro chinês Wen Jiabao mostrou uma certa abertura para contribuir para um fundo de resgate da zona euro mas essa promessa estaria ligada a uma exigência de que o continente deixasse de considerar a China como uma ” economia de  não-mercado” ou seja, que em vez disso a passasse a considerar a China como uma economia de mercado a parte inteira, uma vez que a designação em vigor levanta restrições legais às suas omnipresentes exportações a baixos preços. O Director do Fundo de resgate, Klaus Regling, voltou de Pequim a 28 de Outubro sem ter alcançado nenhum compromisso nesse sentido.


De qualquer maneira, a influência da China sobre as empresas europeias, sobre a sociedade e sobre a cultura está claramente a aumentar. Os chineses injectaram uma maneira hiperactiva de capitalismo relativamente à forma do capitalismo italiana actuar na esfera dos negócios, criando uma dinâmica em que os servos e senhores têm quase sempre papeis comutáveis. Isto gerou uma mistura de emoções entre os italianos, que vão desde o orgulho ferido até a xenofobia frontalmente assumida. A forma incómoda, inquieta, desconfiada, com que os italianos e chineses convivem em Prato é uma metáfora para os choques culturais que acontecem diariamente em todo o mundo tanto quanto capitalistas e trabalhadores procuram novas terras de oportunidades, muitas vezes em detrimento das que já existem. Para o resto da Europa, pode ser um sinal das coisas que estão para vir…


Via Pistoiese, a rua repleta do que é o coração da Chinatown de Prato, tem estado a mudar dramaticamente desde os dias em que Prato era um centro da cultura europeia. O Mestre renascentista  Lippo Lippi, uma vez pintou frescos no Duomo, em que estes representam peregrinos europeus do século 16 a dirigirem-se para os lugares sagrados de Madona na cidade onde  a Virgem Maria teria sido vista. Agora os italianos de Prato alcunharam esta  área como chamando-se  San Pechino (Santo Pequim), porque 90 por cento das casas à volta de Via Pistoiese são de propriedade chinesa. Os restaurantes penduram telhas vermelhas e douradas, em caracteres chineses, com a frase em italiano “Tavola Calda” ,comida quente, rabiscada em baixo porque as autoridades de Prato o ordenaram por decreto. Os reguladores  italianos habitualmente encerram “para-farmácias” e ervanárias que vendem ervas chinesas, produtos de espécies animais protegidas ou ainda   Viagra e Cialis ilegais.


A transformação de Prato começou no início dos anos 90 quando os produtores italianos de têxteis começaram a estabelecer fábricas na China e, de seguida, traziam alguns desses trabalhadores, mão-de-obra barata, para a Itália. Os chineses pobres que procuram uma vida melhor ouviram falar que havia postos de trabalho disponíveis em Prato e começaram assim a inundar a região usando vistos de turista e os serviços dos chamados snakeheads, os passadores, ou sejam simplesmente, os contrabandistas chineses. Muito rapidamente mesmo os trabalhadores-empresários chineses começaram a abrir as suas próprias fábricas em Prato, muitas vezes comprando-as a italianos que ficaram felizes por conseguirem vender as suas empresas familiares em face da intensificação da concorrência global. A partir daí, os novos proprietários começaram a produzir bens mais rapidamente e mais barato também do que os seus homólogos italianos.


As roupas destas novas fábricas chinesas chamada de pronto moda, a substituir “fast fashion”, podem, por sua vez, apresentar a famosa etiqueta “Made in Italy”, o que é sinónimo de muita qualidade. A invasão estrangeira da indústria da moda levou o Parlamento da Itália a aprovar uma lei tendo por base uma definição mais objectiva do que se entende por “Made in Italy” numa tentativa de limitar a utilização desta etiqueta a verdadeiros artesãos italianos. Embora a lei tenha agora uma complicada exigência de dada “percentagem” como requisito, os fabricantes são capazes de a contornarem simplesmente juntando produtos baratos, elementos fabricados no estrangeiro em roupas ou bolsas ou sapatos na Itália. E as grandes casas de moda contornam-na também pela produção em fábricas chinesas em Prato e noutros lugares mesmo, através de subcontratados italianos e de intermediários.

 

(Continua)

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