5. O INSTINTO E O JUÍZO
Eu tenho uma vizinha, a D. Amélia, que é uma morena apetitosa e sacudida. A Mariana bem reparou nos olhares que eu lançava à vizinha e ameaçou:
– Um dia destes essa gaja ainda leva com um chicharro no trombil.
– Ó mulher, deixa-te lá de parvoíces.
O marido da D. Amélia tratava-a muito mal, até porrada lhe dava. Felizmente morreu. Sentiu-se mal, levou a mão ao peito, deu-lhe o badagaio, esticou o pernil, bateu as botas. Agora a D. Amélia é viúva. As coisas complicam-se…
Batem com a aldraba no portão e a Mariana vai abrir: é a D. Amélia, toda vestida de preto. A Mariana fica que nem uma estátua de pau e a D. Amélia começa a chorar. A Mariana abre então os braços e aperta a vizinha contra o peito. Acaba por levá-la lá para dentro de casa.
Fiquei muito ralado da vida e ainda por cima aparece o Tareco a sarnar-me. Viu a cena do choro e afirma não entender as caturrices do sexo. Exige que eu confesse que sou amante da D. Amélia.
– O que é que estás para aí a alanzoar? Tu és doido Tareco?
– Mas gostavas de fodê-la, não gostavas?
– Mas o que é isto, onde é que nós estamos? No Cais do Sodré?
– Cais do Sodré não consta na minha memória. Peço explicação, por favor.
Viro costas. Ele vem atrás de mim, as rodinhas sempre a girar.
– Fernando, desculpa, corrijo a frase: tu gostava de ter um caso com a D. Amélia, não gostavas?
– Ó sorte macaca, logo esta caçarola pensante havia de me sair na rifa…
– Estás perturbado, Fernando?
– Perturbado porquê? Não me dizes?
– Digo: por quereres dar um pirafo e não poderes.
– Um pirafo, Tareco?
– Pois, uma berlaitada…
– Tareco, Tareco… O que te safa é não teres língua, senão enchia-a de pimenta. Ora esta… Berlaitada?
– Pois, pirafo, berlaitada, queca, pirocada, penachada, trancada, foeirada, galadela, pixotada, mocada, caralhada, pincelada, gaitada, carapauzada, truca-truca, chouriçada, cambalhota… Queres mais sinónimos ou estes já bastam?
– Valha-nos Santa Engrácia, mas que desgrácia… Este agora parece o Intendente das putas a mandar bocas… E querias tu entrar na CEE…
– São apenas as palavras que me ensinaste, dicionário vulgar não as regista.
– Mas o contexto, Tareco, o contexto…
– Se ficas incomodado com o teu próprio vocabulário, pergunto de outra forma: estás perturbado porque queres, e ao mesmo tempo não queres, consumar o teu apetite sexual pela D. Amélia?
– A linguagem está melhor, o raciocínio é que está chocho. Ó lata de lixo fedorenta, o que é que tu sabes de apetites sexuais? Também tu já começas a ser atormentado pelos desejos? Com o quê, meu Deus, com o quê? Anda, diz lá, ó robot que és boto e roto, eunuco nato.
– Desejos não tenho. Mas é justamente a diferença de constituição que melhor permite apreciar a diferença de comportamento. Tens medo das conclusões que sabes inevitáveis? Continuas perturbado? Posso avançar?
– Avança, almotolia do Inferno.
– Queres e ao mesmo tempo não queres. O instinto, que tanto louvas, só vos mete em paradoxos.
– Razão tem a Mariana em dizer que tu és o meu padre confessor. Pensando melhor, afinal não tem.
– Mas tem ou não tem?
– Tem e não tem.
– Outro paradoxo.
– Tareco, vê lá se, de uma vez por todas, começas a entender os jogos de pensamento. Tem razão quando tu és o confessor. E deixa de ter quando tu és o confessado. É nesta alternância de posições que o tempassa a não tem e vice-versa. É isto que tu não entendes, meu aselha: mais depressa, ou mais devagar, uma coisa acaba sempre por se transformar no seu contrário.
– Lógica dialéctica, falta a síntese. Qual é?
– Ó Tareco, se eu soubesse qual era ela, seria eu o Messias.
– Uma vez disseste e disseste bem: análise sem síntese é foda sem orgasmo.
– Mas o que é isto? Voltamos ao Intendente?
– Peço desculpa, já alço o nível. Querer e não querer é um jogo de contrários, isso entendo eu. Mas nem para a D. Amélia tu sabes qual é a síntese?
– Não largas o osso, hein?
– Então reconheces que sentes atracção sexual pela D. Amélia e que, ao mesmo tempo, não queres aliviar-te dessa pulsão?
– Ó Tareco, és mesmo um anjinho. Atracção por atracção, haja mulheres…
– Diz-me uma coisa: de cada vez, um homem só gosta de uma mulher?
– Isso é que era bom…
– E de cada vez, uma mulher só gosta de um homem?
– Isso ainda era melhor…
– Devo pois entender que um gosta de muitas e uma gosta de muitos, e tudo ao mesmo tempo, mesmo quando esse um e essa uma estão juntos e partilham a mesma cama?
– Tareco, há quem grite que não e acenda fogueiras para queimar os que dizem que sim. Estou em crer que os piedosos tostadores apenas pretendem que assim não fosse. Se algum deles te aparecer pela frente, acerta-lhe logo um pontapé nos guizos, ou então desaguisado tu contigo ficarás.
– Eu não tenho isso que tu dizes. Portanto, disso não sei o valor. Verifico que gostas muito de metáforas. Tudo precisa de um suporte material para existir. Mas dado que a matéria orgânica se degrada em menos de um século, concluo que as metáforas são produto da tua fantasia.
– Suporte material, Tareco? Raça, é esta a minha raça.
– Memória genética, Fernando? Talvez seja, a Mariana já me disse que tu és muito desbocado, sais ao teu pai, ao teu avô… Não domino suficientemente a Genética para opinar. Vou investigar e depois digo-te.
– Não te metas nisso, Tareco. Não sobrecarregues os teus bancos de dados. Não ficaste já entupido com a receitas de cozinha portuguesa que a Mariana te ensinou? E todas as outras cozinhas que tens de aprender? Só da francesa é bites e baites que não acaba mais. Tareco, deixa-te lá de atoardas, vai ao que interessa, nada mais tem sentido.
– Fernando, o fenómeno do sentido é a própria expressão social da conduta…
Dei um berro:
– Chega, ó minha carraça electrónica, chega!
Sossegou por um instante. Logo voltou à carga.
– Fernando, sigo o teu conselho, vou só ao que interessa. Portanto, pergunto: se o instinto assim vos comanda e vocês não querem ou não podem controlá-lo, por que é que um não se deita com as muitas, por que é que uma não se deita com os muitos, e ficam todos mais aliviados?
– Tareco, o que tu estás a propor é a grande rebaldaria, não é?
– Nada disso. Apenas proponho que a espécie humana alcance o estado de graça.
Exaltei-me:
– Estado de graça, ó desgraçado? Só agora vejo como és tão diferente de nós… É porque nunca passaste por onde nós estamos sempre a passar. É garganta muito apertada. De um lado o juízo, com a sua balística, do outro o instinto com as suas armas brancas. Lixa-se o passante e nós passamos, compulsão, travar não conseguimos. O instinto diz-nos que tudo podemos. O juízo diz-nos que nem tudo devemos.
– E o instinto consente nisso?
– Que remédio… Mas vinga-se, vinga-se… Por muito prezar a condição humana, quem em si queira abafar, até ao fim, o animal que permanece, também homem não será, secura d’alma é desumana condição.
– Afinal és tu que estás a falar como o Camões…
– Estou? Nem tinha reparado… Mas está a entender o que te digo?
– Faço os possíveis.
– O juízo contra o instinto, é guerra que já dura há milénios… Quem vence, caras ou cunhos? Afinal eles são as duas faces de uma mesma condição, a humana. Quem recusa o seu contrário, a si mesmo se recusa. Sabedoria será entender e em si-mesmo aceitar a luta dos seus contrários. Será impedir que um supere o outro, até que um no outro se converta, o juízo a ser instinto, o instinto a ser juízo.
– É muito bonito o que dizes, voltaste a falar como o Camões. Mas a respeito da D. Amélia, o que eu não percebo é como…
– Tareco! Sobre esse assunto só digo mais uma coisa. A minha vontade era chegar perto dela e dizer-lhe: estou a caminho dos setenta anos, vou passar à reforma o meu Zé Maria Pincel; a D. Amélia não quer fazer-lhe uma festa de despedida? Mas fico só na vontade, passar à acção não passo, não posso. E agora muda de assunto, ponto final, parágrafo. Percebes?
– Fernando, tenho muita pena da vossa condição humana.
– Não tenhas Tareco, não tenhas. Este, para nós, é que é o sal da vida, o fel e o mel.
