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DIÁRIO DE BORDO, 14 de Janeiro de 2012


 

 

Ontem a Standard and Poor’s baixou a notação da França e de mais oito países da EU. Especificando, Portugal, Itália, Espanha e Chipre viram as suas notações baixarem de dois níveis. França, Áustria, Eslováquia, Eslovénia e Malta de um nível. Portugal passou de BBB- para BB, notação considerada como de lixo financeiro. A Moody’s já há meses tinha colocado o nosso país neste nível. A França desceu de AAA para AA, quando faltam pouco mais de três para as eleições.

 

Parece que as agências de notação, que ultimamente pareciam mais calmas, estão a querer recomeçar a lançar o pânico na Europa, nomeadamente nos países que parecem mais vulneráveis. Na zona euro só quatro países mantêm a notação AAA, a Alemanha, a Finlândia, a Holanda e o Luxemburgo. Nada garante que não venham a ser também eles o alvo dos ataques das agências de notação, que assim actuam como que à maneira dos antigos augures, que interpretavam certos sinais da natureza, desde o voo ou o cantar das aves, ao trovão, para prever o futuro e recomendar certos comportamentos. Até havia augures oficiais. E pelo que se tem visto, as agências de notação não serão muito mais rigorosas que os seus vetustos antecessores; basta ver os erros gravíssimos que cometeram em 2008. Pasma-se é como as levam tão a sério. E, por outro lado, como não se lhes chama a atenção, de modo firme, para os problemas que causam.

 

A economia, o que é como quem diz, a vida das pessoas, está muito assente nos investimentos e na vida financeira. A desconfiança entre as nações, entre os bancos, provocou uma quebra, que estes golpes sucessivos agravam cada vez mais. Os pretextos invocados, apresentados em frases como “necessidade de consolidação orçamental”, “pressões sistémicas na zona euro” e outras, querem dizer coisas como “cortar nos salários e benefícios”, “facilitar despedimentos”,”apressar privatizações”. Estas últimas de preferência a preço de saldo. Só uma mudança brusca de sistema poderia cortar esta pressão, que está a levar a Europa (não só a zona euro) à recessão.

 

Na corrida para as eleições norte-americanas um dos pratos fortes entre os candidatos à nomeação pelo partido republicano é comparar a economia europeia à dos EUA, chegando invariavelmente à conclusão da superioridade da segunda. E invocam que a razão está no estado social, o qual estará na origem de uma acomodação dos europeus, e da falta de ambição para saírem do actual marasmo. Como tal propõem-se ir contra tudo o que se pareça com benefício social, a começar pela reforma na saúde, que aliás Obama não conseguiu fazer avançar. E pensam assim atrair investimentos, desviando-os da Europa. No resto do mundo, a instabilidade causada por razões externas ou internas também causará a fuga dos capitais, para a pátria do capitalismo, e onde estão sediadas a maioria das agências de notação. Aí estão sem dúvida mais seguros, tendo em conta até que as despesas militares norte-americanas quase igualam as do resto do mundo. Devem achá-las mais adequadas do que as despesas sociais.

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