Nota prévia da Coordenação:
A DEMOCRACIA EM DEBATE PERMANENTE
Não tendo havido novas achegas ao debate e às conclusões que, há dias atrás, publicámos, entendemos que esta discussão não deve parar. Começamos, com este texto, uma nova fase dessa discussão e convidamos todos, colaboradores e visitantes, a enviar as suas opiniões – agora já não submetidas a quaisquer regras.
Antes da Revolução de 1974, falávamos todos de Liberdade e de Democracia. Parecia que estávamos a falar das mesmas coisas. Éramos gente que pensava de maneiras diferentes e o único objectivo comum era provocar a queda da ditadura. Para depois do derrube do Estado Novo, cada um sonhava para seu lado. Para muitos dos que integravam comissões democráticas, a Democracia era isto em que estamos. Alcançámos a liberdade, podemos dizer o que queremos, ter opinião deixou de ser um delito e isso basta-lhe. Estão satisfeitos e nem entendem por que motivo há quem não o esteja. De facto, temos liberdade.
A Isabel do Carmo (talvez já nem ela se lembre) disse num comício em 1974 ou 1975 que, sim tínhamos Liberdade, mas «a liberdade não se come». Grande verdade. A liberdade, daqueles 18 meses em que vivemos a ilusão do Poder Popular, podia ter sido aproveitada para construir a democracia. Mas não nos entendíamos – Éramos uma minoria – quase 17% foi o máximo que conseguimos (nas eleições presidenciais de 1976).
O PCP tinha o seu projecto – projecto que a restante esquerda recusava. Alguns porque tinham outros projectos – a UDP, minúscula quando comparada com o PCP, era talvez a maior da chamada extrema esquerda. E, dentro da extrema-esquerda, tentava impor a sua utopia, decalcada do que pensavam ser a realidade albanesa. A LCI tinha a sua utopia, baseada na obra de Trotsky, o PRP defendia a criação de sovietes e inspirava-se em Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht… O MES defendia o Poder Popular, mas pela adesão de elementos destacados do movimento a um PS já estava em deriva para a direita, viu-se até que ponto essa defesa era inconsistente.
Nunca estávamos de acordo e basta a experiência dos GDUPs para ver quão difícil seria que um dia viéssemos a concordar em aspectos centrais da luta política – nos GDUPs havia uma regra – não discutir teoria, apenas questões práticas – Mas os problemas e os choques eclodiam a cada momento – a simples redacção de um folheto a anunciar uma sessão de esclarecimento, podia demorar horas, gritos exaltados, insultos…
Pequeno – burgueses na maioria, sonhávamos com revoluções em que o proletariado assumiria o poder. O proletariado entretanto, começava a descobrir os prazeres do consumo – e tinha um sonho diferente do nosso – deixar de viver na miséria – ter casa própria, automóvel, alcatifas, pôr os filhos na universidade – no fundo deixar de ser proletariado. Pelo menos deixar de o ser da forma mítica que os pequeno burgueses queriam impor, com uma imagética própria do século XIX. O que o capitalismo propunha era mais bonito, mais sedutor. E não tinha a violência que os grafitti e cartazes ameaçavam – camponeses irados de foices em riste, operários de punho cerrado e expressões ameaçadoras sob os capacetes de protecção…
Quando dizemos “nós sonhávamos com a Revolução”, é bom que tenhamos consciência de que Revolução, Liberdade e, sobretudo, Democracia não significava o mesmo para todos. Em contrapartida, a matilha de ex-situacionistas e seus filhos e netos, espalhada por diversos partidos, sabia muito bem o que queria e, sobretudo, todos queriam o mesmo. E pela sedução que o consumo exerce, muitos dos que contávamos como aliados da tal Revolução, apoiavam a matilha – logo nas eleições de 25 de Abril de 1975 a esmagadora maioria que PS, PPD e CDS somavam, devia ter-nos alertado para a realidade. Mas não. Houve quem somasse o PS à esquerda e inventasse uma maioria que na realidade nunca existiu. – éramos muito minoritários e divididos como estávamos, só através de um golpe militar podíamos atingir o poder. E todas as correntes que integravam a extrema esquerda tinham os seus aliados dentro das Forças Armadas.
Em 25 de Novembro a posição das Forças Armadas (a que prevaleceu) esteve em consonância com o que pensava a maioria dos cidadãos – só a esquerda revolucionária teve um sentimento de profunda perda. Temos tendência para nos vitimizar – o reformismo do PCP, o neo-liberalismo do PS, os militares que em 25 de Novembro desfizeram o que tinham feito em 25 de Abril. Esquecemo-nos dos nossos erros, indecisões e falta de cultura políitica.
Para podermos avançar, temos de compreender o que aconteceu – não queríamos todos a mesma coisa, embora todos quiséssemos a Democracia. Houve momentos naqueles dezoito meses em que podíamos ter convencido muita gente do PS, muita gente do PCP a apoiar-nos. Porque nem os partidos maiores podiam contar com grandes fidelidades – as maiorias, o povo, por assim dizer, percebeu mais depressa do que nós – que dizíamos verdades, mas que as profundas divisões ideológicas nunca nos deixariam puxar o carro da Revolução no mesmo sentido.
Houve traições, incoerências, tudo isso houve. Mas a principal culpa da nossa derrota, cabe-nos. Enquanto não o assumirmos, não avançamos.
