DEBATE – QUE RUMO PARA A NOSSA DEMOCRACIA? – por Augusta Clara

 

Augusta Clara Soares de Matos nasceu em Lisboa, em 1945.

Licenciou-se em Biologia (ramo de investigação científica) pela Faculdade de Ciências da Universidade Clássica de Lisboa (hoje Universidade de Lisboa).

O seu trabalho de investigação de fim de curso, sobre doseamentos de ácidos nucleicos , realizou-se no Laboratório de Biotecnologia do LNETI (Laboratório de Engenharia e Tecnologia Industrial), com o apoio do Laboratório de Bioquímica do Instituto Gulbenkian de Ciência. Foi investigadora do LNETI/INETI nas áreas da biotecnologia e, posteriormente, da informação científica e bioética ligadas àquela tecnologia biológica.

 Prestou provas públicas, com equivalência a doutoramento, sobre “Os Impactos Sociais da Biotecnologia”, com trabalho complementar intitulado “Patentes de Matéria Viva”.

 Encontra-se, actualmente, aposentada da Função Pública.

 Para além da actividade estritamente profissional, integrou o grupo Ciências, Técnicas e Valores, de natureza interdisciplinar e interuniversitária, composto por elementos de diversas universidades portuguesas (Évora, Lisboa, Aveiro, Minho), de universidades do Estado Espanhol (La Coruña e Complutense de Madrid) e do LNETI. Com este grupo participou na elaboração de textos e esteve presente em vários eventos, em Portugal e na Galiza, sobre bioética, nomeadamente sobre a responsabilidade social dos cientistas no mundo em que vivemos.

 A seguir ao 25 de Abril desenvolveu actividade sindical e político-partidária na área da chamada esquerda revolucionária.

 Posteriormente, fez parte do grupo fundador da revista Questões e Alternativas conjuntamente com vários autores deste blog.

 

 Este é o seu depoimento:

 

O 25 de Novembro e a degradação da democracia

 

Toda a gente tem falado, tudo se tem dito sobre a degradação da democracia, sobre os atentados que ela tem vindo progressivamente a sofrer. Só ninguém ainda se lembrou de dizer que a primeira machadada que lhe desferiram foi dada no 25 de Novembro de 1975. E os responsáveis por esse golpe contra a democracia entram agora na discussão como se culpa  alguma tivessem na entrega do país nas mãos daqueles que ansiavam por tal reviravolta para retomarem o poder perdido em 25 de Abril de 1974.

 

O contra-golpe de 25 de Novembro foi uma traição. Ver Salgueiro Maia ou Jaime Neves em cima dos tanques foram espectáculos diametralmente opostos, por muito que nos tivessem querido convencer do contrário. O primeiro esteve do nosso lado, do lado da democracia que se estava a construir, o segundo com as armas viradas contra nós, para lhe travar o ímpeto. E a mando de quem?

 

Lembro-me que, nessa altura, apareceu em Portugal uma sombria personagem de nome Frank Carlucci cujo curriculum – a parte que se conhece – fala por si: tinha entrado para a CIA em 1956, em 1961 destacou-se numa missão no Congo – terá sido no assassínio de Lumumba? -, era director dum departamento da Agência desde 1972 – em 1973 a CIA esteve por trás (promoveu) do golpe fascista de Pinochet no Chile -, e em Dezembro de 1974 foi nomeado representante dos EUA em Portugal.

 

Mas muito por cá se passeou antes de assentar definitivamente arraiais em Janeiro de 1975. Nessa altura já a parte mais importante do trabalho aqui estava decidida: pôr fim à Revolução e meter na ordem os revolucionários, isto é, o povo português que vibrava em uníssono na construção dum novo país.

 

A Revolução tinha saído dos carris, disseram. E, por isso, se fez a agulha no sentido que nos trouxe, passo a passo, a este buraco sem fundo, à beira do abismo em que estamos prestes a despenhar-nos.

 

Expliquem-nos, digam-nos, militares do Grupo dos Nove, o que estava errado? Para além das divergências ideológicas, normais e legítimas numa democracia, o que estava este povo a fazer de mal com o entusiasmo do dia-a-dia na construção duma sociedade nova, mais justa, mais culta, mais feliz, segundo as palavras com que Zeca Afonso caracterizou esse período: “essa época maravilhosa em que para se ser cidadão era preciso mais alguma coisa do que meter o voto numa urna, uma época em que o povo estava efectivamente a ser o sujeito da História”?

 

Foram vocês e outros mais que tinham corrido todos os riscos para nos darem essa alegria. O que vos passou pela cabeça quando resolveram privar-nos dela?

 

Durante mais de 36 anos este nebuloso golpe tem sido branqueado como se nada se tivesse passado.

 

Os seus responsáveis não criaram uma Associação do 25 de Novembro, como teria sido lógico uma vez que o caminho encetado em 25 de Abril tinha deixado de lhes servir, estava torto, como afirmaram. O malabarismo de branqueamento levou-os aos comandos – não escapamos à associação das ideias – da outra, com o nome genuíno, pelos vistos sem sobressaltos de consciência.

 

Mas como não vale a pena chorar sobre o leite derramado, e já que estamos todos no mesmo barco – as metáforas ajudam muito a abreviar o discurso mil vezes repetido sobre a situação actual –, e sem solução à vista, gostava, sinceramente, que esses homens, inicialmente do 25 de Abril, que tão lestos foram a inverter-lhe o sentido, nos pudessem sugerir um caminho novo agora.

 

É que para o lado certo nunca há ajudas.

2 Comments

  1. É isto Augusta, sem tirar nem pôr. Uma análise correcta. A coragem inicial foi-se derretendo como manteiga perante todos os Carluccis internos e externos. As verdades têm de se dizer.

Leave a Reply