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Aí pelas três da tarde – Raduan Nassar

 

 

 

 

Raduan Nassar  Aí pelas três da tarde

 

 

 

 

  

 

Raduan Nassar, escritor brasileiro, nasceu em Pindorama.

 

Adolescente, instala-se com a família em São Paulo,

 

onde cursou direito e filosofia. Exerceu diversas actividades,
estreando-se na literatura em 1975
com Lavoura arcaica. Em
1978 publica a novela
Um copo de cólera (escrita em 1970). Menina a

caminho, publicado em 1997, reúne contos dos anos 60 e 70.

 

Há mais de vinte anos abandonou a produção literária,

 

dedicando-se exclusivamente à actividade rural.

 

 

 

 

   Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de lou­co quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um lar­go “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exa­gere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, ti­rando a roupa do corpo como se retirasse a im­portância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e acei­tando ao mesmo tempo, como boa verdade pro­visória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nu­dez no trampolim do patamar e avance dois pas­sos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentá­rios. Nada de grandes lances. Desça, sem pres­sa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se compri­mem ao pé da escada. Passe por eles calado, cir­cule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de lou­co ainda não precipitado), e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languida­mente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede so­bre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

 

 

1972

 

 

(in Raduan Nassar, Menina a caminho e outros textos, Cotovia)

 

 

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