PARATY – ALMEIDA FARIA E JORGE EDWARDS À CONVERSA por Clara Castilho

 

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Dizem os jornais que o escritor português Almeida Faria e o chileno Jorge Edwards conquistaram a plateia na mesa “Os sentidos da paixão”, ao encerrar a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), a que já aqui nos referimos.

 almeida faria

O primeiro apresentou o seu romance A paixão e o segundo A origem do mundo, tendo Paulo Roberto Pires a conduzi-los.

Jorge Edwards confirmou a sua relação com a literatura e a vida brasileiras, considerando-se um dos escritores latino-americanos que mais sabe do mundo brasileiro.

Almeida Faria lembrou que desde cedo leu os poetas brasileiros. Acrescentando que se tem como feminista, confessou a sua grande admiração por duas grandes escritoras brasileiras – Clarice Lispector e Cecília Meireles. Contou a sua relação com o escritor brasileiro Raduan Nassar que um dia, no ano de 1975, lhe bateu à porta para lhe entregar um livro de sua autoria – Lavoura arcaica – que considerava ter sido muito influenciado pelo livro A Paixão.

Como não podia deixar de ser, a política veio à tona, até porque as duas obras a ela referem. Almeida Faria considerou o seu livro como “um livro de fúria e raiva contra a ditadura salazarista” e Edwards põe as suas personagens a viver o exílio, num tempo em que o Chile vivia a ditadura de Pinochet.

O nosso escritor assumiu que “a ditadura obrigou-me a seguir um princípio poético que é não dizer tudo. Sugerir mais do que contar pormenores. Isso é especialmente importante ao falar de paixão. Uma das coisas mais difíceis de descrever, por exemplo, é um beijo. Para um escritor, falar dos prazeres do corpo é difícil porque ou se cai na banalidade ou na pornografia”.

Almeida Faria disse que o que pretendia com a sua escrita, pode ser dito nas palavras de Clarice Lispector:  “A palavra é a isca para pescar o que não é palavra”, considerando que a literatura deve tentar ir além dela própria e dizer mais do que o que está nas palavras.

Devido ao seu “amor” a Cecília Meireles acabou recitando o poema chama-se Retrato:

“Eu não tinha este rosto de hoje,/assim calmo, assim triste, assim magro,/ nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo./ Eu não tinha estas mãos sem força,/ tão paradas e frias e mortas;/ eu não tinha este coração que nem se mostra./Eu não dei por esta mudança,/ tão simples, tão certa, tão fácil:/ Em que espelho ficou perdida a minha face?”

Almeida Faria estreou-se com o romance “Rumor Branco”, publicado em 1962, quando era ainda estudante de Filosofia e tinha 19 anos de idade. O nosso argonauta Manuel Simões sobre uma das suas obras – A Paixão – aqui se pronunciou, considerando-a “uma obra que marcou, sem dúvida, a narrativa portuguesa dos anos sessenta, pelo carácter inovativo da efabulação”.

 A Paixão, tendo saído em 1965, foi agora publicado no Brasil pela Cosac Naify.

 

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