02h00 – No RI 14, em Viseu, começou a preparação da companhia que seguiria para a Figueira da Foz, onde se juntaria a outras unidades em acção (RI 10, CICA 2, RAP 3) com vista a constituir o agrupamento «November». – A companhia de intervenção a três bigrupos comandada pelo capitão Rui Rodrigues abandonou a EPI, em Mafra, para seguir por Malveira, Loures, Frielas e Camarate até ao Aeroporto da Portela, que deveria ocupar e defender.– No BC 5 o major Cardoso Fontão mandou distribuir armas, munições e aparelhos de rádio e formar as companhias.– Do CTSC sairam duas viaturas pesadas e um jipe, com um total de 47 homens, e dirigiram-se para o seu objectivo.
02h30 – Os capitães Dinis de Almeida e Fausto Almeida Pereira executaram vitoriosamente o plano de controlo do Regimento de Artilharia Pesada 3 (RAP 3), na Figueira da Foz, neutralizando os subalternos milicianos em serviço. Almeida Pereira abriu o portão da unidade aos oficiais da Escola Central de Sargentos (ECS) de Águeda. – Forças da EPI iniciaram a ocupação dos pontos chave de Mafra, assegurando o domínio da vila e dos respectivos acessos.
02h40 – Forças da Escola Prática de Engenharia (EPE) sairam de Tancos para se dirigirem à ponte da Golegã-Chamusca, e aí se juntarem às Companhias de Caçadores 4241/73 e 4246/73 oriundas de Santa Margarida.
02h50 – Uma coluna da EPAM, num total de cerca de cem homens, montados em duas viaturas ligeiras e três pesadas, comandada pelo capitão Teófilo Bento, iniciou a curta marcha em direcção ao objectivo – A RTP – com dois canais e a preto e branco, era um objectivo importante.
Sem objectivo estava a maioria dos jovens no país de Salazar – A Clara Castilho diz-nos como era –
OS JOVENS E A COMPREENSÃO DA VIDA ANTES
DO 25 DE ABRIL DE 1974
Como “contar” as vivências do 25 de Abril e o que era a vida antes dela, a pessoas mais jovens, nascidas muitos anos depois, numa sociedade que já beneficiou das vantagens sociais daí resultantes? Confronto-me muitas vezes com este problema. No outro dia, alguém falava do sabão que se atirava para os cascos dos cavalos que eram montados pelos polícias que nos perseguiam nas manifestações ocorridas antes de 1974. E uma jovem comentou: “coitadinhos dos cavalos!” Até saltei da cadeira, antes de me impor a calma e lhe perguntar o que é que sabia sobre as razões pelas quais as pessoas se reuniam para protestar, correndo o risco físico de serem agredidas e irem presas. Seguiu-se uma conversa, que tentei não ser “sermão”, nem “lição”, sobre o que era a vida social, económica e cultural daquela altura, altura em que seus próprios pais tinham pouco mais de dez anos.
É para os jovens difícil pensar numa vida onde:
– a televisão que havia era de um só canal e a preto e branco
– a maioria das crianças só ia à escola até ao 4º ano; muitas faziam-no percorrendo kms a pé e descalças
– não havia centros comerciais, nem grandes supermercados
– o telefone só existia em algumas casas, um só aparelho e fixo.
Poderá parecer ridículo começar a explicação com estes indicadores. Mas é assim que consigo pegar-lhes a atenção para depois ir avançando, para a visão de um mundo onde:
– os jovens rapazes iam engrossar os pelotões de guerra, numa luta em que se não sentiam empenhados
– as pessoas não podiam falar livremente, nem associar-se, nem escolher os seus representantes; quando o tentavam eram reprimidas, presas e torturadas
– as mulheres casadas não tinham o direito de adquirir bens
– as condições de trabalho, quer rural, quer industrial, eram deploráveis
– 71% das habitações não possuíam água corrente
– a taxa de mortalidade infantil era a maior da Europa
– 49 % da população consumia proteínas em dose inferior à recomendada como necessidade
– unicamente cerca de 10% das crianças frequentava equipamentos de primeira infância.
Estas conversas acabam sempre com os jovens a sentirem que são uns felizardos por terem nascido agora. Para depois se fixarem nas suas preocupações com o futuro emprego… E aí aproveito para perguntar se votaram nas últimas eleições. Adivinham a resposta? E lá se segue outra conversinha…
