16h00 – O coronel Abrantes da Silva, a pedido de Salgueiro Maia, entra no Quartel para dialogar com os sitiados.– Forças do CIOE dirigem-se aos estúdios da R.T.P. (Monte da Virgem) e do R.C.P. (Tenente Valadim), no Porto, para proceder à sua ocupação.
16h15 – O capitão Salgueiro Maia dá ordens ao alferes miliciano Carlos Beato para instalar os seus homens no cimo das varandas do edifício da Companhia de Seguros Império e fazer fogo sobre a frontaria do Carmo, agora com armas automáticas G-3.
16h25 – O comandante da força da EPC, na ausência de resposta por parte dos sitiados no Quartel do Carmo, ordena a colocação de um blindado em posição de tiro e chega a dar “voz” de “um, dois”…, sendo interrompido pelo tenente Alfredo Assunção que conduz dois civis até ele. Trata-se de Pedro Feytor Pinto, director dos Serviços de Informação da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, e Nuno Távora, que se dizem portadores de uma mensagem do general Spínola para Marcelo Caetano.
16h30 – Salgueiro Maia autoriza a entrada no Quartel dos dois mensageiros.
c. 16h30 – Spínola comunica ao Posto de Comando do MFA ter recebido um pedido de Marcelo Caetano para ser ele a aceitar a rendição do chefe do governo. Otelo, após recolher a opinião dos presentes, concede-lhe esse mandato.
16h45 – Os dois mensageiros saem do Quartel do Carmo e deslocam-se num jipe, acompanhados por Alfredo Assunção, para casa de Spínola que, entretanto, se dirige já para o Carmo.
Sílvio Castro, um argonauta carioca que vive em Veneza e é professor de Língua e Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade de Pádua, descreve o dia histórico num poema em que ele, o poeta brasileiro Sílvio Castro, preside a uma assembleia de poetas portugueses, com intervenções sobre 25 de Abril: poesia do socialismo português. Oxalá na Serra da Estrela, onde se faz a reunião, a temperatura seja positiva…
I
Na luminosida deste dia
de Setenta-e-quatro
não me fecho no meu quarto
mas me encontro no alto
alto da Serra da Estrela
com meus companheiros vindos
de muitos tempos e tantas partes –
escuto a voz de cada um deles
que me chega até o alto da Serra –
eis Antero que ecoa sacro
Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares…
logo depois tenho também a companhia
de Cesário, deambulante entre o campo e a cidade
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
com ele vem Gomes Leal
que grita a todas as alturas
Soou a hora, ó rei. A aurora vem raiando.
a eles se junta vindo do Brasil o Crespo que
anota com convicção segura
Mas nota que somos filhos
Dos combatentes d’Avis,
E que firmes seguramos
O pendão da liberdade
II
Somos todos um verdadeira comunhão
de companheiros
que aumenta quanto mais alto chegamos
e a ela agora se acrescenta a universalidade
de Torga
Aqui declaro que não tem fronteiras.
Filho da sua pátria e do seu povo,
A mensagem que traz é um grito novo,
Um metro de medir coisas inteiras
III
Passam as horas, mas não cessa a espera
de novas dádivas testemunhas –
então a a nós unidos vem estar a doce
iluminante convicção de Sophia
que ainda mais nos une
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
IV
Agora escuto atento o aparecer amigo
de dois Manuéis muito chegados
ao meu estar hoje nesta montanha –
da voz clara de Alegre escuto
e me rejubilo pela certeza dos ditames
É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir
canto de encontro ao qual se junta
aquele também claro de Simões
contra os inimigos do homem
e de sua liberdade
E como não ferir os parágrafos da fome
que as crónicas dissipam ante o clamor geral,
o ciclo das carências, polígono
tão marcado, ou a indignidade
submetendo todo um povo ao seu exílio.
V
No alto da Serra da Estrela me junto
a tantos companheiros
então estamos atentos a Loures
Desse momento falo, do instante breve e puro
em que o Paraíso pareceu estar à mão dos nossos dedos;
não, não é do passado que vos falo – juro,
pois foi no futuro que Abril aconteceu.
